terça-feira, 12 de abril de 2022

[Estórias da Aviação] Ira Levin é um homem, um escritor

José Manuel

Como escrevi em texto anterior, entre os anos de 1974 e 1980, o Boeing B-707, o flecha ligeira, ainda reinava quase absoluto nas rotas principais que começavam a ser absorvidas paulatinamente, de acordo com a chegada, pelo gordão DC-10, que iniciou a operação em meados de 74.

Então, logo que cheguei à Rede Aérea Internacional, RAI, e fixo nesse equipamento, voei até 1976 como Auxiliar, sendo promovido a Supervisor de Econômica nesse ano, fiz maravilhosas programações de dois a três dias inativos, pelo mundo afora.

Um dos voos que adorava era o Los Angeles, que nos proporcionava um pernoite fantástico em Hollywood, num dos hotéis mais icônicos da América.  O ROOSEVELT, na Hollywood Boulevard.

Depois do meu início no mundo dos sonhos, na Suíça, logo a seguir caí de paraquedas no coração do cinema americano. HOLLYWOOD!

Mal podia acreditar que dormia na mesma cama onde personalidades do cinema dormiram, tomava banho numa das mais famosas piscinas das telas e pisava na calçada da fama, lendo com avidez os nomes nas estrelas que pelos meus pés desfilavam.

Quando cheguei a primeira vez ao hotel, assim que desembarquei do ônibus, olhei lá em cima na montanha, a palavra HOLLYWOOD, e do outro lado da rua, bem na minha frente, o famoso cinema CHINESE THEATER, tive de me beliscar várias vezes para ter a certeza de que era ali mesmo que eu estava.

Nem em sonho poderia supor que um dia na vida estaria naquele lugar. E não foi um dia, foram anos viajando frequentemente para lá.

Já que Deus estava sendo tão gentil comigo, então o melhor a fazer era exatamente aproveitar da melhor forma possível aquela dádiva.  A Disney, a Universal Studios, o museu de cera Madame Tussauds, Knott's Berry Farm nas cercanias do hotel, e mais uma dezena de atrações eram sempre uma opção, mas o que eu gostava muito de fazer era andar de manhã bem cedo por aqueles bulevares bem tratados, e as grandes caminhadas eram o meu prazer e toda a vez que lá ia, "escalava  as colinas de San Fernando Valley ou as Hollywood Hills, me lambuzando de primeiro mundo com as casas maravilhosas que desfilavam aos meus olhos sempre admirados pela arquitetura, ajardinamento das ruas e beleza organizada desses lugares.

Voava muito para Los Angeles, e o único problema era uma programação muito longa, normalmente com 12 a 13 horas de voo via Lima e um fuso horário de menos 5 horas, o que arrebentava com qualquer um.

Nessa época, por volta do final de 1979, estava noivo, com casamento marcado para dali a alguns meses, e era bastante "na minha" além do que sempre fui, uma característica muito própria, o que às vezes, gerava alguma má interpretação por parte dos colegas.

E foi num voo desses, em que aconteceu algo parecido com a minha auxiliar, por sinal uma garota bastante interessante, e bonitinha.

Após o café da manhã, quando o Boeing começou a "descer escada" na aproximação de LAX e não sei explicar que tipo de procedimento estranho era aquele, mas que só acontecia naquela rota, sentei-me no crew seat para continuar a leitura do livro "Os meninos do Brasil", quando, por trás da poltrona, ouvi a pergunta se aquela escritora IRA LEVIN, era boa.

Era a bonitinha querendo saber sobre o livro, porém, como a posição para responder não era das melhores uma vez que ela estava atrás de mim em pé, respondi, talvez secamente, que IRA LEVIN era um escritor americano. Um homem, não uma mulher!

Acho que não fui muito bem interpretado e ficou um clima interessante, aliás dois.

O dela, que não gostou, e o meu que gostei!!

Enfim, chegamos, e durante o pernoite, no dia seguinte bem cedo saí para caminhar, quando encontrei com três colegas da minha tripulação, voltando do café da manhã, ela, entre eles, que não me deu a menor bola. Uma cena interessante, que não esqueço pois achei super engraçada aquela reação.

Mais tarde um pouco, de volta ao hotel, em plena calçada da fama, numa coincidência incrível, tropecei com a Luiza Hauschild, amigona da minha amiga Nara, ambas de Novo Hamburgo, da qual eu gostava muito. Claro, foi uma festa em plena Hollywood Boulevard, que até hoje comentamos sobre essa faceta gostosa da vida.

Enfim, no dia seguinte voltamos ao Brasil e por cinco anos não mais vi a minha auxiliar bonitinha, pois era base São Paulo e eu base Rio.

Em 1983, já separado, fui fazer uma programação para Paris, indo de extra crew e já na tripulação do Kelmer, no gordão DC-10 quando para meu espanto a "bonitinha", mais bonitinha ainda, fazia parte daquela tripulação.

Título e Texto: José Manuel – naquele voo duas coisas estavam escritas nas estrelas: ter encontrado a Luiza, e estar casado com a “bonitinha" há 38 anos! Abril de 2022. 

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Um New York, um idiota e o fusca verde 
As ervas da ira (parte III) – Gozador extrapolando limites 
As ervas da ira (parte II) – Quando o demônio se incorpora 
Eu, a Panair e o assombro das imagens 
A Pedra da Gávea e o voo de Miami 
As ervas da ira (parte I) – Um sonho quase desfeito 

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