sábado, 10 de setembro de 2016

Comandos


José António Rodrigues Carmo

Em Portugal os Comandos sabem que contam com a esquerda, como grande inimiga.

A esquerda, fora e dentro das Forças Armadas, continua a ter atravessada na garganta a ignóbil derrota dos valentes revolucionários, às mãos de algumas centenas de comandos, metade dos quais antigos combatentes que largaram as suas famílias e empregos, para voltarem a pegar na G3, nas semanas que antecederam o golpe de 25 de Novembro de 1975.

É por isso, e só por isso, que a agenda mediática se engalfinha contra os comandos, quando acontecem acidentes no treino.

Tudo o que fazemos na vida tem riscos. Morrem pessoas a fazer desporto, a jogar à bola, a subir montanhas, a fazer surf, a conduzir automóveis, a passear no campo, a mergulhar na praia.

Cada morte é, para os seus familiares, uma tragédia, mas não podemos viver numa rodoma à prova de riscos, viver é um permanente risco e nem a mais extremada prudência nos coloca a salvo dos imponderáveis. Não teremos jamais capacidade de prever tudo o que vai acontecer, o mundo não é determinista, ponto.

Temos de ter alguns cuidados, para minimizar as probabilidades de sermos apanhados na roleta, mas só isso.

A instrução dos comandos é dura. É tão dura quanto possível. E por muitos cuidados que se tomem, todos sabemos que " o diabo faz fogo com uma tranca de pau".

Estive nos Comandos e vi morrer alguns camaradas. Não só nos comandos, sublinhe-se. O meu primeiro contacto com a morte em directo, no meio militar, foi quando tinha 18 anos e era cadete. Um jacto Fiat G 91, enganou-se no alvo e disparou sobre nós, matando o cadete Minas e ferindo gravemente o Pinto de Almeida.

Não se proibiram, que eu saiba, nem os jactos, nem o treino de ataque ao solo.

E poderia continuar a desfilar casos.

Outros países, bem mais pintados, assumem que o treino militar encerra riscos e aceitam-nos. Só o ano passado, morreram três militares nos treinos dos SAS.

São dezenas, só neste século.

Não fiz pesquisa alguma, mas não tenho quaisquer dúvidas que o mesmo acontece nas tropas especiais de todos os países do mundo.

Não há milagres.

Quem leva a sério o que faz, em termos militares, sabe que o combate é pior do que tudo o que se possa treinar. Pensar que o treino de uma tropa especial, não é mais do que um acampamento de escuteiros, em condições vigiadas de pressão e temperatura, é uma grossa asneira.

Se se entende que um país tem de ter militares preparados para o pior, então há que aceitar que no treino vão acontecer acidentes e haverá baixas.

Que devem ser investigadas, sentidas, evitadas, choradas, mas sem passar daí para a estupidez demagógica e populista de pôr tudo em causa.
Não o fazem em França, não o fazem no Reino Unido, não o fazem nos EUA, não o fazem em Espanha, nem em nenhum país a sério.

E também não o fazem por cá, quando não se trata dos comandos. Há tempos faleceu um piloto da Força Aérea num acidente com um C-130.
Vamos fechar a Força Aérea?

Isto tudo para dizer que quando se trata dos Comandos, o fogo que faz rabiar muita gente, é o que está aceso desde 1975. Basta lembrar, por exemplo, que um dos cabecilhas do golpe, capturado na Ajuda pelos Comandos, era o então Major Mário Tomé, hoje "assessor" do BE.


Título e Texto: José António Rodrigues Carmo, 9-9-2016

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