sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

[Diário de uma caminhada] «Sentir & Saber», de António Damásio, e a distopia da igualdade

Que nos traz de novo a última obra de António Damásio, Sentir & Saber? Muito, mas destaco permitir inferir sem ambiguidades que a igualdade e a desigualdade são tão fundamentais quanto indissociáveis

Gabriel Mithá Ribeiro

Há dias escrevi sobre O Erro de Descartes (1994), livro de António Damásio. O autor conferiu um cunho revisto e incisivo aos temas então tratados no novo livro, Sentir & Saber. A caminho da consciência (Lisboa, Temas e Debates, 2020), obra incontornável que volta interpelar-nos sobre quem somos, de onde viemos e para onde caminhamos enquanto espécie humana.

Se bem que o autor não o faça de modo explícito, parto do pressuposto de não existirem descontinuidades entre indivíduo e coletivo. Daí que o livro permita inferir que, entre os erros que mais ameaçam os equilíbrios das nossas sociedades e instituições, está a sobrevalorização do ideal de igualdade que conquistou larga supremacia sociopsicológica e sociocultural, a ponto de diabolizar a legitimidade social da desigualdade.

A tese central do pensamento de António Damásio é a da plenitude da condição humana resultar do equilíbrio entre o biológico e o mental, o sujeito e o meio envolvente, o presente e o longuíssimo percurso histórico desde a mais remota ancestralidade ou o individual e o social. Nenhuma dessas dimensões pode ser minimizada, subjugada, descartada, mesmo no campo das escolhas ideológicas mais comuns.

É por isso que a sobrevalorização política e social da igualdade só não atentaria contra a condição humana se a nossa espécie se apresentasse, no presente, como uma caixa vazia à espera de ser preenchida pelos ideólogos de serviço. Equiparável à de Jordan Peterson, a obra de António Damásio é demasiado clarividente e irrebatível na recusa liminar de tal possibilidade.

No balanço que se pode fazer após tão importante aprendizagem, a igualdade é tão fundamental quanto a desigualdade. Esse é o compromisso civilizacional mais justo e sustentável ao qual devemos estar obrigados quando o nosso objeto é o sujeito coletivo.

Dinesh d’Souza e o dilema ocidental

Faço um desvio para introduzir Dinesh D’Souza (The End of Racism, 1996). Este autor demonstra que a civilização ocidental é a que mais e melhor busca, desde a sua origem, os compromissos que equilibram a espécie humana.

Fazendo uma interpretação livre do seu pensamento, o cristianismo (que conferiu um alcance universal à tradição judaica ao fazer transitar a ideia de povo eleito do Deus único dos judeus para a humanidade no seu conjunto), associado à tradição filosófica iniciada na Grécia da Antiguidade, os dois fundamentos civilizacionais do mundo europeu ocidental, depois extensível à América do Norte e à Oceania, determinaram que esse conjunto civilizacional tenha vivido sempre numa tensão constante entre os seus valores humanos universais, os que impõem a igualdade do género humano, e a realidade vivencial concreta que negava esses mesmos valores impondo diferenças na relação com outros povos por razões de sobrevivência ou de segurança, ou por disputas e ambições territoriais, económicas, expansionistas, entre outras.

Foi esse dilema irresolúvel que transformou os povos do Ocidente nos mais dinâmicos dos últimos dois milénios, e com consequências nos mais variados domínios da vida coletiva (moral, religioso, intelectual, científico, político, social, económico, cultural), uma vez que são incapazes de dissociar a universalidade dos seus princípios existenciais das suas práticas quotidianas autocentradas. Isso tornou-os eternamente insatisfeitos consigo mesmos, ao mesmo tempo que o dilema faz com que nunca percam o rumo da sua existência coletiva, mesmo nos momentos mais ameaçadores.

A fertilidade dessa ambiguidade faz da civilização de matriz europeia ocidental uma força única de dignificação e progresso da espécie humana no seu conjunto. Nos últimos dois milénios, ao mesmo tempo que as ambições de grandeza imperial ou de domínio económico ou de outra natureza se afirmaram entre os povos ocidentais, no passado com recurso a processos violentos próprios de cada época, esse lado primário das identidades europeias ocidentais (id) nunca se desfilia da sua religião, valores filosóficos ou crenças (o superego coletivo, ou moral social, que Freud designou por civilização). O último semeia, em simultâneo, a supressão de violências e injustiças causadas pelos próprios, mas também influencia os outros, os não-ocidentais, com os quais os europeus ocidentais interagiram e interagem em situação de poder dentro e fora do seu território ancestral, na Europa ou nas antigas colónias ultramarinas.

Não por acaso, a quebra moral no tratamento da diferença acabou por ser tanto mais desastrosa em povos sem experiências coloniais ultramarinas consolidadas no último meio milénio, como os alemães e italianos e, fora do ocidente, os russos soviéticos. Também não foi por acaso que a servidão, o absolutismo, a escravatura, a inquisição, as ditaduras, o racismo, entre outros atropelos ao universalismo da dignidade humana, acabaram sempre por ser ultrapassados a partir de dinâmicas que se geram no interior das sociedades ocidentais. Isso por serem fenómenos moralmente incómodos para esse mundo, desde as mais remotas origens ao presente, filiado à sua matriz judaico-cristã e filosófica que se compensam uma à outra no jogo entre a religiosidade e a laicidade.

Quer dizer que, no Ocidente, os princípios (universais) acabam sempre por vencer as práticas (autocentradas) e, uma vez ultrapassados os problemas, eles nunca se repetem, assim como a autoconsciência ocidental do seu próprio mal é uma constante, ao contrário do que acontece com as demais civilizações.

António Damásio acendeu uma nova luz

O que é que a última obra de António Damásio, Sentir & Saber (2020), traz de novo? Muito, mas limito-me a destacar permitir inferir sem ambiguidades que a igualdade e a desigualdade são tão fundamentais quanto indissociáveis, e quanto mais premente a incidência na primeira, tanto mais isso significa que a biologia, o meio envolvente e a história impuseram diferenças sedimentadas ao longo de milhões de anos impossíveis de suprimir. Anulando isso, não compreendemos indivíduos e sociedades diferentes.

Recorro a uma hipótese. Uma dada tradição alimentar de um povo, ou conjunto circunscrito de povos (limitado a uma região ou continente), gera determinados equilíbrios bioquímicos nos organismos humanos que, por seu lado, condicionam as emoções (reações físicas) e os sentimentos (reações mentais), conjunto indissociável entre si nos equilíbrios que geram não apenas no interior biológico do sujeito, mas também da adaptação deste enquanto indivíduo ou coletivo às características concretas do seu meio envolvente, natural ou sociocultural.

No mesmo sentido, um meio natural com determinadas características (por exemplo, fauna selvagem até ao passado recente, um ecossistema ciclicamente marcado pela escassez alimentar ou um clima mais quente) gera um tipo de emoções (biológicas) e sentimentos coletivos (contexto sociopsicológico e sociocultural) distintos de um outro meio natural (com uma fauna menos ameaçadora, com maior disponibilidade alimentar ou com um clima mais frio).

Trata-se de processos continuadamente sedimentados ao longo de milhares ou milhões de anos, pelo que é impossível suprimir diferenças entre comunidades humanas que se desenvolvem em espaços geograficamente autónomos.

Mais do que a questão racial ou étnica associada a minorias em contextos estáveis, questão que se é socialmente significativa é porque traduz pontos de partida civilizacionais profundamente distintos sedimentados ao longo de milhões de anos que os indivíduos transportam no presente, isto é, as diferenças inter-raciais ou interétnicas estão longe de ser ilusórias ou absurdas, o pensamento de António Damásio conduz à antevisão da perpetuação de diferenças entre identidades coletivas que se inserem em espaços geográficos distintos, por exemplo na Europa e em África, uma vez que essas comunidades humanas continuam inseridas em contextos naturais, sociopsicológicos e socioculturais distintos e, no exemplo em apreço, seguem hoje rumos muito mais divergentes do que acontecia no tempo dos impérios ultramarinos europeus.

Por isso, admitir a existência de áreas civilizacionais com identidades distintas dispersas pelo mundo ou assumir a relevância humana dos nacionalismos não só não são temas ou fenómenos absurdos, como absolutamente congruentes com o tratamento digno da plenitude e complexidade da condição humana.

O dever de preservarmos a ameaçada liberdade de pensamento

Vêm-nos de imediato à memória os incómodos da abordagem da relação entre europeus e africanos ou entre brancos e negros. Logo caímos no dilema: ou nos agarramos aos dogmas da igualdade ou do antirracismo pela incapacidade infantil de gerirmos os nossos próprios fantasmas e nada mais aprenderemos ou questionaremos; ou assumimos o dever de nos conhecermos enquanto seres humanos, uma caminhada sempre inacabada, justa, moral e intelectualmente legítima, bastando para essa certeza ler António Damásio ou Jordan Peterson.

Resulta muitíssimo claro que, se não criarmos um espaço público livre para este tipo de discussões, não tarda estaremos a banir pensadores brilhantes como os dois referidos. A verdade é que estamos a um passo desse terrível destino da ignorância.

Acrescento que António Damásio deixa muito claro que aquilo que escreve, assim como o que podemos interpretar a partir do que ele escreve, não fica encerrado no passado, vale para o presente e projetar-se-á inevitavelmente no futuro; vale para a ciência e para o conhecimento, como vale para a vida habitual. A insuprível diferença entre identidades coletivas prosseguirá numas dimensões, assim como a igualdade noutras, e ninguém pode antecipar tendências de longo prazo.

Para elucidar, quem hoje está em certas zonas urbanizadas de Lisboa ou de Maputo não nota diferenças ao nível da civilização material (edifícios, ruas, lojas, serviços, património edificado ou natural), porém a criminalidade comparativamente baixíssima num caso (Lisboa/Portugal/Europa) face à criminalidade recorrente e violenta no outro (Maputo/Moçambique/África) gera predisposições emotivas (biológicas) e sentimentais (sociopsicológicas e socioculturais) diferenciadas numa e noutra identidades coletivas. Um mero exemplo de como contextos convergentes numa dimensão, a material (objetiva), podem sedimentar divergências noutra dimensão, a sentimental (subjetiva), sendo que a última confere novos conteúdos a predisposições distintas sedimentadas ao longo de milhões de anos entre povos que evoluíram em espaços geográficos (muito) separados.

Em suma, ou aprendemos a ser mais complexos no modo como pensamos as comunidades humanas articulando os princípios existenciais com as práticas económicas (ou outras), assim como a diferença com a igualdade; ou continuaremos a promover o atropelamento da plenitude e da complexidade inerentes à condição humana que, inevitavelmente, desemboca em erros, frustrações, falhanços, desastres, violências, destruição. A liberdade de pensar faz muita falta. Aproveitemos António Damásio ou Jordan Peterson.

Título e Texto: Gabriel Mithá Ribeiro, Observador, 1-1-2021 

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