quinta-feira, 30 de julho de 2015

Águas onde vão decorrer competições olímpicas tão contaminadas como esgotos

Uma investigação da Associated Press concluiu que os atletas que vão participar nos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, vão nadar e navegar em águas com níveis tão elevados de contaminação com fezes humanas que arriscam ficar gravemente doentes

Visão

Foto: Reuters
Análises realizadas no âmbito da investigação da agência de notícias revelaram níveis perigosamente elevados de vírus e bactérias, provenientes de fezes humanas, nos locais onde vão decorrer algumas das provas olímpicas do próximo verão.

Os resultados alarmaram especialistas internacionais, apesar de as autoridades brasileiras garantirem que a água vai ser segura para os atletas que participarem nos Jogos. Segundo a Associated Press (AP), no entanto, o Brasil não realiza análises capazes de detetar vírus.

Nalguns casos, chegou a ser detetada uma presença de vírus nocivos para a saúde humana 1.7 milhões de vezes superior ao que seria considerado perigoso, por exemplo, numa praia do sul da Califórnia.

"O que temos aqui, basicamente, é esgoto sem tratamento", explica John Griffith, um biólogo marinho norte-americano, que examinou os protocolos, metodologia e resultados dos testes da AP. "É a água das sanitas e chuveiros e tudo o que as pessoas atiram para os lavatórios, tudo misturado, e vai tudo para as águas das praias".

Leonardo Daemon, coordenador da agência ambiental brasileira que faz a monitorização da água, esclarece que as autoridades cumprem as regras em vigor no Brasil sobre a qualidade da água, com base nos níveis de bactérias. "Qual seria a medida a seguir para a quantidade de vírus?", questiona o responsável. "Não há uma medida para a quantidade de vírus em relação à saúde humana quando em contacto com a água".

O Rio de Janeiro espera mais de 10 mil atletas, de mais de 25 países, para os Jogos Olímpicos de 2016. Quase 1400 vão nadar na praia de Copacabana e participar nas provas de remo e canoagem no lago Rodrigo de Freitas.

A AP pediu quatro rondas de testes para cada um dos três palcos aquáticos das competições olímpicas e também da praia de Ipanema, pela sua popularidade. Foram analisadas 37 amostras para três tipos de adenovírus, rotavírus, enterovírus e coliformes fecais. Nenhuma das amostras foi considerada segura pelos especialistas consultados.

Em causa estão problemas respiratórios e digestivos, mas também a possibilidade de graves complicações cardíacas e mesmo cerebrais.

Kristina Mena, especialista nore-americana, analisou os resultados e estimou que os atletas têm 99% de hipóteses de ficarem infetados se ingerirem o equivalente a apenas três colheres de sopa de água. Depois, dependerá do sistema imunitário de cada um se da contaminação resulta mesmo a doença.

"Se eu fosse aos Olímpicos, provavelmente iria mais cedo para ficar exposto e preparar o meu sistema imunitário para estes vírus antes da competição", sugere John Griffith.

A AP mostrou os resultados também ao treinador de vela da seleção austríaca, mas Ivan Bulaja já os conhecia de perto: a equipa perdeu vários dias de treino, com vómitos e diarreia.

"Esta é, de longe, a pior qualidade de água que alguma vez vimos na nossa carreira", conclui. 
Título e Texto: Visão, 30-7-2015

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