quarta-feira, 9 de junho de 2021

[Língua Portuguesa] ‘Ter de’ ou ‘Ter que’?


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6 comentários:

  1. Utilizar a construção «ter que» em vez de «ter de» é, efetivamente, uma incorreção muito vulgar. E de tanto se ouvir e ver escrita, pode acontecer até que alguém que domine a língua cometa essa incorreção. Não foi o caso do consulente, que utilizou adequadamente a construção «ter de», já que quis dizer «vejo-me na obrigação de», «assumo o dever de».
    No Ciberdúvidas há já várias respostas sobre este assunto [Os erros de Marcelo, Ainda os erros de Marcelo, Ter que e ter de, Ter que e ter de]. No entanto, como o consulente pretende um texto que afaste completamente as suas dúvidas, vou proceder a uma sistematização.
    1. Ter de
    Ter de é uma expressão utilizada quando se pretende dizer que se tem o desejo, a necessidade, a obrigação ou o dever em relação a uma qualquer ação: «tenho de me ir embora» (= sou obrigado a ir-me embora, devo ir-me embora, tenho necessidade de me ir embora), «ele tem de arrumar o quarto» (= ele deve arrumar, tem o dever de arrumar o quarto), «temos de nos ouvir uns aos outros» (= temos o dever ou a obrigação de nos ouvir).
    Nesta situação, o verbo «ter» é um verbo auxiliar da conjugação perifrástica: auxiliar ter + preposição de + verbo no infinitivo. Assim, «ter de», por si só, significa «ter necessidade de», «precisar de», «ser obrigado a», «dever», designando, pois, a necessidade de praticar a ação expressa pelo verbo que se segue, que é o verbo principal.
    2. Ter que
    Nesta situação, o verbo «ter» não é um auxiliar; é um verbo com a plena significação de «possuir», «ser detentor de», «estar na posse de», «desfrutar», «usufruir», «poder dispor de».
    Por exemplo, se alguém quiser dizer que «tem muito trabalho», poderá utilizar a expressão «que fazer» para substituir a palavra «trabalho»: «Tenho muito que fazer.» Do mesmo modo, se quiser dizer que tem uma série de histórias ou aventuras para nos contar, pode utilizar a expressão «que contar» para referir esse conjunto de relatos: «Ele viveu muito, tem muito que contar.» Se quiser, ainda, dizer que tem em casa muita matéria para estudar, assuntos sobre os quais se debruçar, poderá utilizar a expressão «que estudar»: «Tenho tanto que estudar!» E também podem surgir frases sem esse antecedente, subentendendo-se «coisas», «alguma coisa», «algo» (na negativa, «nada») a que o relativo se refira: «ele não tem que fazer» (= não tem coisas que fazer, não tem nada que fazer), «ele não tem que comer» (= não tem nada que comer), «ele não vai ter que dizer» (= não vai ter nada que dizer).
    Por outro lado, esses sintagmas «que fazer», «que contar», «que estudar», «que comer», «que dizer» assumem, pois, força substantiva, como se pudessem ser substituídos por «trabalho» ou «afazeres», «relatos», «estudo», «comida», «palavras», etc.: «ele tem que fazer» = ele tem trabalho, tem afazeres; «ele tem que comer» = ele tem comida; «ele não tem que dizer» = ele não tem palavras. E entre o verbo «ter» e o pronome relativo «que» poderá ser colocado um indefinido (tanto, muito, pouco).
    3. Ter de distingue-se, pois, de ter que, porque no primeiro caso está presente a ideia da obrigação, da necessidade, do dever, enquanto no segundo está presente a de dar uma informação sobre o que o emissor possui ou tem em mãos.
    Vou construir duas frases semelhantes, em que apenas substituo a preposição «de» pelo pronome relativo «que», de modo a mostrar como o sentido é diferente.
    a) «Ele não vai sair, porque tem de estudar.» – Com esta construção pretende dizer-se que ele precisa de estudar, deve estudar, tem a obrigação ou a necessidade de estudar, está obrigado a estudar; e a necessidade de estudar impede-o de sair.
    b) «Ele não vai sair, porque tem que estudar.» – Com esta construção pretende dizer-se que ele tem matéria para estudar. Não é do dever de estudar que se pretende falar, mas da quantidade de estudo que há para fazer. Não é o dever de estudar que o impede de sair, mas a quantidade desse estudo: não é o que «deve», aquilo de que «precisa», mas o que «tem», o que «possui».
    Maria Regina Rocha

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  2. Não é fácil responder à questão colocada, uma vez que, neste momento, as duas expressões são, já, consideradas equivalentes em dicionários de reconhecido valor, como é o caso do Dicionário Houaiss.
    No entanto, posso dizer-lhe que, tradicionalmente, têm sido associados sentidos diversos às duas expressões que indica.

    Por outro lado, uma vez que não é consensual a aceitação de «ter que» com sentido de obrigatoriedade, dever, caso tenha necessidade de utilizar esta expressão num texto formal, recomendo-lhe que utilize «ter de». Não por ser a única correta, mas sim por ser a única consensual.

    Para ficar com uma ideia mais completa, aconselho-a a consultar os artigos subsequentes, em que diversos consultores têm apresentado visões também diversas acerca desta problemática: À volta do «ter de…»/«ter que…»; Ter que e ter de; «Ter que» vs. «ter de»; Dúvidas sobre o «ter de» e o «ter que».

    Edite Prada

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  3. Acredito que possam ser equivalente uso "DE" para evitar a repetição de outro "QUE", porquês, etc...

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  4. "TER DE" é a única forma correcta. Há uma explicação muito simples. Trata-se da Conjugação Perifrástica, que se processa de duas formas:

    1-Verbo auxiliar + Preposição + o Verbo principal que se quer conjugar no Infinitivo
    Os mais usuais verbos auxiliares da Conj. Perifrástica são: estar, ter, andar, começar, acabar, ir, e poucos mais + as Preposições a, de, para + Verbo principal (sempre no Infinitivo). Há uma excepção: quando o verbo auxiliar é o verbo IR não leve Preposição a seguir.
    Exemplificando:
    - ESTIVE PARA IR ao cinema, mas desisti.
    - ESTOU A PROCURAR o livro que perdi.
    - TERÁS DE ESTUDAR mais.
    - ANDO A LER um belo romance/ TENHO ANDADO A LER
    - COMEÇAREMOS A APRENDER Inglês na próxima semana.
    _ ACABOU DE SAIR a classificação.
    - HAVEMOS DE CONSEGUIR bons resultados./ HEI-DE CONSEGUIR (com hífen)
    - VOU ALMOÇAR com os meus amigos; Talvez VÁ ASISTIR ao jogo. (com o verbo "ir" é sem Preposição, como se disse.)
    Como se constata, é errado dizer-se "ter que", pois a partícula "que" não é uma Preposição, mas sim "DE".

    O outro modo da Conjugação Perifrástica é o seguinte:

    2 -Verbo Auxiliar (praticamente os mesmos já referidos) + o Verbo Principal sempre no Gerúndio. Não leva Preposição. Esta forma da Cojug. Perifrástica é a mais usual em certas regiões dos Açores e também no Português do Brasil.
    Exemplos:
    - Gotas de chuva VÃO CAINDO mansamente.
    - O barco IA SULCANDO as águas.
    - VENS MELHORANDO a olhos vistos!
    - Que ESTÁS TRADUZINDO?
    - ANDO TRADUZINDO um texto de Inglês.

    Espero ter conseguido esclarecer. E perdoem os exemplos tão básicos...
    Laura

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  5. Sempre usei e continuarei usando TER DE.

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    Respostas
    1. Jim Pereira: "continuarei usando" é também a forma Perifrástica do verbo "Usar". O verbo "Continuar" é um dos verbos auxiliares da Conj. Perifrástica.
      Faz muito bem em continuar usando "ter de" pois é a forma correcta.
      Laura

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