terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

[Aparecido rasga o verbo] Bizarro

Aparecido Raimundo de Souza 

OITO E MEIA DA MANHÃ
. Dona Cecília está sentada tomando seu desjejum. A campainha toca. De má vontade se levanta. Caminha, passos lentos, devido a idade e alcança o hall que antecede a grande sala de estar. Estica o corpo. Fica na ponta dos pés. Espia pelo buraquinho do olho mágico. Vê um homem de estatura mediana, de costas. Esse é um dos muitos defeitos que as pessoas, de um modo geral fazem questão de carregarem consigo. Ao baterem na porta de alguém, principalmente em prédios de apartamentos, ao invés de permanecerem com os rostos virados para o olho mágico, com a finalidade de serem prontamente reconhecidas, optam por se distraírem mirando um ponto qualquer, ao acaso.
 

Dona Cecília, por um instante, se aquieta, imaginando que o sujeito logo desistirá. Volta à mesa. Renova o café. A campainha volta a tilintar. Duas, três, quatro vezes. Furiosa, a sessentona retorna ao hall. Desta, todavia, não se dispõe a perder tempo perscrutando o comprido do corredor. Abre, de vez. Em contínuo, solta um grito estridentemente medonho, ao tempo em que bate a porta correndo. Rosilda, a empregada, vem lá de dentro, às carreiras. Atrás dela, acodem também a sobrinha de dona Cecília, a Nancy e a filha dela, a Ciane, de oito anos. Rosilda se benze:
— Que foi, dona Cecília? Que bicho lhe mordeu?
Nancy ampara a tia e a leva acomodando num pequeno sofá:
— Por Deus, o que foi que aconteceu?

Ciane, curiosa, segura carinhosamente a mão da espantada e boquiaberta velhinha:
— Credo, o que fez a senhora se assustar tanto assim?
Como dona Cecília perdera a voz, momentaneamente, e parecia sem forças para respirar, Nancy pede à Rosilda que leve a tia para seu quarto e, por via das dúvidas, ligue para o médico dela. Refaz, então, os passos da tia. Sem petanejar, escancara a porta, numa puxada violenta. Agarrada a sua saia, de contrapeso, a pequena e espevitada Ciane, tomada, igualmente, pela abelhudice de saber o que ocasionou à velhota cair arriada de pavor. O cara parado no umbral se veste impecavelmente. Usa um terno preto, camisa branca e gravata marrom, combinando com os sapatos. Na mão esquerda uma pilha enorme de livros.
— Pois não, senhor?

— Om ia, enhorita – diz a visita inesperada com a voz fanhosa. Eu ome é Eorace. Ou endedor ambuante ê Iblias Agradas.
— O que? Como, disse senhor?!
Nessa hora — e só nessa hora, Nancy percebe que o infeliz não tem nariz. Quando um ser humano não tem nariz, a coisa complica um pouco, ou melhor, complica muitíssimo. Sem orelha, passa. Com um olho só, engana. Sem um braço, idem. Sem os dois, vexa, oprime, acanha, embora a gente olhe de soslaio, ficando inteiramente penalizado. No fim, se acaba aceitando. Contudo, um rosto sem o nariz no lugar do nariz é de deixar qualquer filho de Deus assustado. A bem da verdade, assustado seria pouco, assustadíssissimo, ou coisa parecida, cairia de excelente tamanho.
— Não queremos nada, obrigado.

Fecha a porta no nariz —, no nariz não, no rosto do desditoso, ou melhor, quase consegue. Ciane se adianta às intenções da mãe e aquiesce com ela, envolta num gesto infantil despretensioso mas repleto da mais pura inocência:
— Mãezinha, atende ele. Coitado, não tem nariz!
Nancy, por um momento, fica sem ação. Rosilda chega, o coração batendo acelerado, quase à saltar com a língua para fora dos olhos. Por pouco, não segue o mesmo caminho da patroa, tendo um piripaque extravagante. Solta um “arre égua, vai tentá o cão” voltando nos passos que veio sem olhar para trás.
— O senhor não quer entrar?
— Uito obriado.
— Pode falar. Sou toda ouvidos...

O desnarigado coloca sobre uma mesinha de centro os volumes que carrega:
— Ou endedor e Íblias Agradas. Ostaria e icar om um eemplar ara e ajuar? Ez eais.
Nancy não consegue entender lhufas nenhuma. A guria, porém, esperta e arisca, socorre a mãe e a tira de um embaraço iminente:
— Mãe, o tio vende Bíblias Sagradas.
— É, filhinha?
— Ele falou que custa dez reais. O nome dele é Leporace.
O rapaz olha para a menina com simpatia incontida e sorri um sorriso feio e deformado, porém franco e verdadeiro.

Em seguida desvia o rosto para a mãe. Balança a cabeça de modo a confirmar as palavras da pequena:
— Arotinha eserta. Enza Eus!
Sem saber o que responder, Nancy encara a filha:
— O tio falou que sou esperta. Disse mais: Benza a Deus.
Nancy chacoalha a cabeça feita uma vaquinha de presépio:
— Compra, mãe. É livro de Jesus.
— Como é que você sabe?
— A minha professora de religião outro dia, lá na escola, falou sobre isso. Compra, mãe!
Tanto a jovenzinha insiste que Nancy, condoída e compadecida do estado lastimável do vendedor, acaba adquirindo três exemplares:

— Tome. Uma é sua. Essa outra, por favor, dê à Rosilda e a terceira à sua “vovó” Cecília.
Apalpa os bolsos da calça jeans. De um deles, um amontoado de notas amassadas entra em cena. Separa o dinheiro correspondente às aquisições e estende ao rapaz:
— Aqui está. O senhor aceita um café?
— E ão or inômodo...
A bebida quente é servida, não pela Rosilda, pelo Arthur, o motorista. Ao terminar, o vendedor retira de um interno do paletó um maço de panfletos, onde se vê, de um lado, a oração do Pai Nosso e, de outro, os Dez Mandamentos. Se dirige à mocinha:
— Ara ocê, Iane! Embrança o io Eporace...

Com um gesto mecanizado o rapaz guarda o dinheiro e, em contínuo, agradece a hospitalidade. Passa a mão nos livros. Acena, da porta, um adeus vitorioso. Vira as costas e ganha o corredor.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, no Espírito Santo. 8-2-2022

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