sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

[Aparecido rasga o verbo] Aos milagres de certas graças

Aparecido Raimundo de Souza 

AS DUAS AMIGAS
, Cimara e Cineide, caminham sem pressa alguma para o ponto de ônibus. São quase onze horas. O sol está escaldante. Apesar disso, as beldades proseiam e riem animadamente, enquanto cruzam as ruas na tentativa de galgarem o ponto da condução, na praça da igreja matriz, aquela hora, apinhada de gente.
Cimara
— Mudando de pau pra cavaco, acho que não te falei. A minha mãe perdeu o celular e não sabe onde. Na volta, você me ajuda a procurar?
Cineide
— Fácil, amiga. Nem precisa se dar ao luxo. Ligue para ele...
Cimara
— Você acredita que não sei o número da minha velha? 

Cineide 
— Que número que você não sabe? 
Cimara 
— Do celular da minha mãe, ora bolas. De quem mais? Acorda, colega... 
Cineide
— Eu que não sou nada da sua mãe tenho o número dela. Deixa ver aqui na agenda do meu aparelho...

Cimara
— Achou?
Cineide
— Anota ai no seu: nove, nove, nove, cinco, oito zero, zero, dois patinhos na lagoa, bolinha ó. Gravou?
Cimara
— Sim, amiga: nove, nove, nove, cinco, nove... oito zero, dois patinhos na lagoa, bolinha ó. Confere?

Cineide
— Liga logo e deixa de onda...
Cimara
— Estou fazendo isso, amiga. Droga! Ninguém atende. A bateria deve ter descarregado...
Cineide
— Vamos fazer o seguinte, Cimara?
Cimara
— Diga, amiga...

Cineide
— Que tal deixarmos os nossos salões de beleza para amanhã? Hoje, segunda-feira, deve estar assim de gente. Olhe como andam os ônibus. Aproveitando que dona Glória sai cedo para o trabalho, sugiro voltarmos agora à casa dela, já que é perto da sua e da minha e revirarmos tudo de pernas para o ar. Assim que toparmos com ele, se estiver por lá, logicamente, botamos para carregar e aí a gente liga em seguida dos nossos aparelhos até descobrirmos, de uma vez por todas, onde ele se encontra...
Cimara
— Bem pensado, Cineide. Por que não atinei com isso antes?

Cineide
— Por que você não é ninguém se eu não estiver por perto para lembrar certas coisinhas simples. Resumindo, Cimara: eu sou o pensamento vivo que aflora e você a cabeça objetiva que coloca o que mentalizo em movimento.
Cimara
— Você tem toda razão, minha linda. Sem você eu não seria nada.
Cineide
— E eu sem você me pilho como um zero à esquerda, apesar de estarmos ambas com quase trinta anos nas costas. Na volta da sua mãe, passamos em minha casa e almoçamos. Gostou da ideia?

Chegam no quintal de dona Glória. Um outro problema surge em obstáculo. Cimara não vislumbra como ganhar o interior da enorme moradia. Lembra, entrementes, que a sua genitora deixa as chaves dependuradas num local apropriado onde, aliás, repousam todas as demais pecinhas pertencentes aos outros cômodos. Sua mãe carrega, na bolsa, somente a Tetra de três voltas de acesso à sala.
Cimara
— Reze, Cineide, para que a mãe não tenha feito como eu faço no meu quadrado. Por medo encadeio, com escoras, todas as janelas. A da despensa ela sempre deixa encostada...

Volteiam em torno da construção. De posse de um cabo de vassoura forçam o tal envidraçado do depósito. Realmente, não havia sido imobilizado.
Cineide.
— É meio alto. Consegue subir e pular?
Cimara
— Com a sua ajuda... me disponho a qualquer travessura. Como estou de vestido, e não temos suporte de apoio, terei que expor as minhas partes íntimas aos seus olhos. Por favor, quando me segurar, não espie a minha calcinha...
Vai daqui, tenta dali, agarra acolá, a jovem alcança seu intento. Sem mais delongas, passa a mão nas chaves da cozinha e, de reforço, a que descamba na varanda. Engrena as veredas de regresso.

Uma trabalheira danada para “despular” de onde começou a aventura. Colocar a brecha invadida na posição normal e abandonar o conforto do peitoril de mármore no qual se agarrara, atrelada ao afoito acelerado da descida. À se soltar, um abrupto faz com que ambas se desequilibrem e beijem o chão rolando cada uma para um canto. Rostos sujos de terra, mãos e roupas igualmente emporcalhadas, Cimara exibe num sorriso contagioso o resultado edificante do que se propusera em sua missão:
— Pronto, amiga. Agora podemos escolher. Você prefere vir comigo pelo conforto da sala ou começamos a escalada usando os descaminhos tortuosos dos fundos?
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, no Espírito Santo, 4-2-2022

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