quinta-feira, 8 de julho de 2021

A ditadura do bem

Exibir cartaz a favor do regime militar é crime, mas louvar Getúlio e seu Estado Novo é apenas homenagem à uma ‘figura histórica’

J. R. Guzzo

As manifestações de rua contra o presidente Jair Bolsonaro e a favor de valores democráticos têm sido, também, uma oportunidade para a prática impune da violência, a exibição de ignorância em volumes industriais e a pregação de propostas que defendem exatamente o contrário do que pode pretender um manifestante bem-intencionado — como, por exemplo, a louvação em cartazes, bandeiras e palavrório, da pior ditadura que o Brasil já teve. Para espanto geral, a última concentração de rua ressuscitou, como herói do povo brasileiro e do “campo progressista”, ninguém menos que Getúlio Vargas.

Boa parte dos manifestantes nem sabe quem foi Getúlio; no máximo, é mais uma figura chata que os professores elogiam nas salas de aula, quando há aulas. Mas eis aí o homem outra vez, encarnando de novo uma das mentiras mais grosseiras da história do Brasil — a de que foi um herói da democracia, dos pobres e do progresso. Getúlio chegou ao poder por um golpe de Estado, em 1930; em 1937 criou uma ditadura, mais agressiva e descarada que a do Ato Institucional nº 5, que durou até ser derrubado em 1945. (Hoje, defender o AI-5 é considerado crime “contra a democracia”; defender o golpe de Getúlio é um gesto de “progressismo.”)

Em seu governo, uma ditadura primitiva chamada “Estado Novo”, Getúlio comandou uma repressão política feroz, mandou sua polícia secreta torturar, matar e exilar gente, censurou a imprensa como nenhum outro regime (no caso de O Estado de S. Paulo, simplesmente expropriou o jornal e nomeou interventores para dirigir suas operações), apoiou o nazifascismo e não realizou uma única eleição. Como pode aparecer em manifestações de rua, agora, transformado em santo padroeiro das lutas populares, da “esquerda” e dos que querem salvar o Brasil dos regimes totalitários?

Não houve uma única cobrança a respeito. O ministro Alexandre Moares e seus inquéritos contra “atos antidemocráticos” não deram um pio. Os comunicadores houveram por bem não comunicar nada de útil a respeito. É o Brasil de hoje. Cartaz a favor do regime militar de 1964 é crime. Cartaz a favor da ditadura de Getúlio e do seu Estado Novo é apenas uma homenagem à uma “figura histórica”, como o Duque de Caxias ou o Regente Feijó. Está valendo tudo, cada vez mais.

Título e Texto: J. R. Guzzo, Estado de S. Paulo, via revista Oeste, 7-7-2021

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