quinta-feira, 31 de março de 2022

Resposta a uma calúnia travestida de pesquisa

Flavio Gordon

“O mal de quase todo esquerdista desde 1933 foi ter querido ser antifascista sem ser antitotalitário.” (George Orwell)

Há alguns dias, tive conhecimento de uma dissertação de mestrado defendida na Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) que me acusa nominalmente de, na condição de “membro permanente” (sic) da produtora Brasil Paralelo, contribuir com um pretenso “avanço do processo neofascista no Brasil”. Autorada por Mayara Aparecida Machado Balestro dos Santos, adepta confessa de uma metodologia marxista-gramsciana, e orientada por Rodrigo Ribeiro Paziani, não mereceria de mim maior atenção – pois que mera ilustração da degeneração acadêmica por mim analisada em A Corrupção da Inteligência: intelectuais e poder no Brasil – caso não fosse parte de uma vasta rede de difamação mal disfarçada de pesquisa científica, e cujo objetivo final é fornecer subsídios intelectuais (ou pseudointelectuais) a campanhas midiáticas de assassinato de reputação e eventuais perseguições na esfera jurídica, hoje infestada de revolucionários de esquerda, dispostos a impor sua ideia de “mundo melhor” mesmo que à revelia das leis.

Foto: José Fernando Ogura/ANPr

Com efeito, embora sua autora dê entrevistas defendendo com pose de sumidade intelectual a sua “pesquisa científica”, a dissertação em tela talvez devesse ser chamada propriamente de dossiê, que tem como alvo principal a Brasil Paralelo, descrita em termos gramscianos como um “aparelho privado de hegemonia” (o leitor interessado na compreensão do conceito pode consultar os capítulos 2 e 3 da parte I de A Corrupção da Inteligência), e cuja própria existência é considerada um escândalo intolerável. Algo, aliás, perfeitamente compreensível do ponto de vista dos promotores da hegemonia gramsciana, que, mediante uma “longa marcha sobre as instituições”, consiste nada menos que no esmagamento pleno da diversidade de opiniões e visões de mundo.

Sintomaticamente, a seção de agradecimentos do dossiê inicia-se com este grito de guerra: “Primeiramente, #FORABOLSONARO!!!” (sic). E se encerra com um agradecimento especial “ao meu Partido do PSOL (sic) em Marechal”. Referindo-se a camaradas de partido, a autora afirma que o dossiê é “fruto de todas as lutas que travamos juntos, símbolo de resistência e sede de mudança”. Escusado dizer, pois é facílimo notar logo nos primeiros parágrafos que o trabalho é mesmo produto de agitação política coletiva, jamais de uma ponderada meditação individual. Talvez isso ajude a explicar, antes de mais nada, a pletora de erros básicos de português cometidos a cada frase, fato que suscita questões como esta: a dissertação não foi revisada? A urgência da guerra política se sobrepôs ao devido cultivo da língua? O orientador estava de férias na época da finalização? A autora não foi alfabetizada a contento? Não contava com nenhum amigo ou parente para lhe dar um bom conselho, algo na linha de “Querida, antes de querer refletir ‘sobre a relação entre sociedade civil e Estado no capitalismo’, ou sobre o pretenso ‘avanço do processo neofascista no Brasil recente’, não seria mais prudente se matricular num curso básico de português?”

Embora sua autora dê entrevistas defendendo com pose de sumidade intelectual a sua “pesquisa científica”, a dissertação defendida na Unioeste talvez devesse ser chamada propriamente de dossiê

Sim, os erros são muitos e grosseiros. A primeira frase do resumo já é uma pérola de solecismos afogados em academiquês castiço: “A proposta desse trabalho buscou analisar o fortalecimento e a estruturação de sujeitos coletivos representativos da chamada ‘nova direita’ no Brasil contemporâneo, tendo por enfoque singular um dos seus mais recentes espaços de poder e hegemonia: trata-se da empresa, (sic) ‘Brasil Paralelo’... Os referenciais teóricos e metodológicos estão ancorados numa abordagem marxista-gramsciana (e seus comentadores) que articula questões envolvendo Estado, ‘sociedade civil’, poder e hegemonia às novas configurações político-ideológicas e materiais da sociedade capitalista, com especial atenção nas reflexões de ‘Brasil Paralelo’, enquanto um aparelho privado de hegemonia à serviço (sic) de frações burguesas conservadoras, reacionárias e de marcas fascistas no Brasil recente”.

Primeiro, os solecismos. Ignorando por ora a recorrente hiperinflação da crase (“à serviço de frações burguesas” é de doer), concentremo-nos nas vírgulas, o tempo todo mal colocadas, e frequentemente interpostas entre sujeito e objeto. Na primeira frase da introdução, por exemplo, já vemos a vírgula intrujona novamente: “A presente pesquisa intitulada ‘Agenda Conservadora, Ultraliberalismo e Guerra Cultural: ‘Brasil Paralelo’ e a Hegemonia das Direitas no Brasil Contemporâneo (2016-2020)’, buscou (sic) refletir e analisar...” (p. 21). Duas páginas adiante, ela reaparece, como se a autora se lhe devotasse um carinho todo especial: “A construção da dominação e direção e a garantia de hegemonia, exige (sic) uma atualização constante das estratégias de produção de consenso...” (p. 23). Transcorrido mais um par de páginas, olha a bichinha aí de novo, toda serelepe, abanando o rabinho para a dona: “O conceito de Estado integral, permite (sic) verificar a estreita correlação...” (p. 25). E assim segue por toda a dissertação... digo, dossiê.

Título e Texto: Flavio Gordon, Gazeta do Povo, 30-3-2022, 18h15

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