sexta-feira, 7 de outubro de 2022

[Aparecido rasga o verbo] Coadjuvante

Aparecido Raimundo de Souza 

SANSÃO SMITH
caminha, corpo lasso (1), pela rua deserta. É quase meia noite. Está temeroso e aflito. Apavorado, extremamente fora de controle. Pouco falta para se borrar. Para piorar o quadro, leu nos jornais que o Crista de Galo, seu bairro, colado ao pé do morro de São Calisto, é um dos mais perigosos para se viver. É tão falado, tão noticiado nos jornais, nas televisões e redes sociais, que passou das vinte horas, ninguém arreda os pés de casa.

Vivalma arrisca sair ou entrar. Tudo fecha. Tem até um tal de toque de recolher que a galera respeita e não discute. Se um ou outro tenta bancar o engraçadinho e dar o contra, dia seguinte aparece boiando no canal que corta a entrada da comunidade.
— “Porcaria” — lamenta para si mesmo perscrutando (2), ressabiado, para todos os lados. — “Meu chefe bem que poderia ter me trazido em casa”.

Um pouco antes de bater o cartão e cair fora — recorda apressando os passos — o encarregado Zaqueu se aproximou de sua mesa (onde colava o rabo das oito da manhã até as dezoito, só levantando da cadeira, ao meio dia, por quinze minutos mandando o grude para dentro da barriga objetivando manter o saco em pé para não cair de vazio), e vomitou o recado:
— “O patrão quer levar “umas palavrinha” com você””.

Sansão, de pronto, obedeceu. Também, como um mísero pau mandado, que saída? Ou acatava, feito uma vaquinha de presépio, ou sabia, de antemão, se veria na rua da amargura sem dinheiro e emprego. O chefão, como sempre, enrolava para entrar em qualquer tipo de assunto, por mais insignificante que fosse. Depois de um cansativo papo de cerca Lourenço, chutava a bomba:
— “Furosemida precisará chegar um pouco mais tarde. Aconteceu um imprevisto. Dá para você aguentar o tranco até às 21h30? Ela pintando na área, você racha no trecho. Amanhã, ao invés de pegar as oito, libero seu passe para às onze horas...”.

Tudo bem, pensou Sansão com seus botões concordando com a dobra das horas. Não havia nada de mal em cobrir a ausência de uma colega. Ainda mais em se tratando de uma pessoa tão especial como a Furosemida, a serviçal da cozinha, que praticamente todas as tardes, trazia alguma coisa diferente na mochila e dividia com ele. Pasteis de queijo, bolinhos de carne, pizzas, bolo de fubá e chocolate para o lanche da madrugada e não titubeava em repartir.

A jovem se desfazia em gentilezas de coração aberto. Afora isso, a grana dessas “extras” (mais de três horas), ajudaria a engrossar, e muito, o minguado salário que recebia final do mês. O problema se constituía num só. Chegar depois das oito da noite, seu horário habitual. Ficando até as 21h30, com a escassez da condução, desceria no ponto costumeiro num horário extremamente perigoso.

No Crista de Galo os assaltos e saques eram constantes. Aumentavam a cada minuto. Moças viviam sendo estupradas, pais de família e senhoras casadas levavam surras se não dispunham de nada consubstancial para ser subtraído à sanha dos meliantes que cresciam em número e presença. Sem mencionar as crianças espancadas e a turma da pesada, que mexia com o tráfico. Segundo as estatísticas do líder comunitário, aparecia um “presunto” com a boca cheia de formigas praticamente dia sim, dia não.

Perdido nessas recordações, eis que, de súbito, uma funesta ocorrência lhe traz de volta à realidade. Um rapaz alto, magro, de mau aspecto, aparentando uns trinta anos, obsta (3) seus passos saltando do galho de um madeiro de fronde vasta, caindo, em pé, à sua frente. A figura esquisita tem o rosto coberto por uma meia de nylon escura. Numa das mãos, um trinta e oito reluz engatilhado, pronto para pipocar, se necessário. Sua voz é cavernosa e tétrica. Chega a doer na alma:
— “Aê, meu camaradinha. O redondu”.

— Redondo? Que redondo?
— “Tá me tiranu?!”.
O indefeso Sansão desafivela o cinto e arria as calças. Vira a buzanfa magra da cor da neve no momento em que o delinquente passa a rir feito um desmiolado ao tempo em que pergunta incrédulo e cuspinhando para o lado, num gesto de pura repugnância:
— “Qui está fazeno, seu imbecil?”.

— Descendo a cueca para lhe dar o “meu redondo...”.
— “Palhaçu, tá di gozação? — Grunhi (4) enfezado e ainda sem deixar de gargalhar. — “Não queru a sua bunda magra e suja. To falanu do relojo”.
Sansão toma um baita susto, seguido, contudo, de um alívio maior que lhe inunda o espírito em frangalhos. A notícia, assim de chofre, de que o famigerado não lhe quer tocar nessa parte vergonhosa do corpo, o faz chorar copiosamente.

O apavoramento chega a tal grau de submissão, que, num dado momento, misturado à inquietude, deixa cair a sacola com a marmita vazia e algumas guloseimas da colega prestimosa da qual cobrira a ausência:
— Pelo amor de Deus, não me mate. Tome. O relógio... digo, o “redondo”. — E seu...
O gatuno olha para o objeto e, antes de colocá-lo no bolso, reclama:
— “Rolex falsu, ô Mané? Tira essi cordãum do pescoçu e manda pra cá”.

Sansão obedece, súplice, os olhos apagados:
— “Qualé, meu. Tá mi zuano? Isso aqui não é oro. É biju. Anda... a pulsera. To ficano nervosu...”.
Sem titubear, praticamente o infeliz arranca o acessório. Passa já um quarto de hora após a meia noite. Tempo meio frio. Entretanto, o suor desce à tanto, que insiste gotejar, e, cai, como pérolas de um colar arrebentado da concha do rosto branco como vela. Na verdade, Sansão mais parece um cadáver chegado recente à condição de defunto:
— “Porra, cara. Tudo em você é farsu? O tênis. Dá o tênis”.

— Não é de marca, acredite.
— A jeans. Arranca a jeans. Fica de cueca.
— Não me leve a mal. Essa jeans também não é autentica. Comprei no brechó ali da dona Palmira. Por favor, lhe imploro. Me deixa ir embora...
— “Ou muitu mi enganu ou o prezadu tá si caganu di medu?!...”.
Aflito e agastado (5), Sansão se esforça, debalde, para encontrar fôlego. Balbucia:
— Tem toda razão. Acabei de sujar as pernas abaixo. Dor de barriga, desde ontem...

O ladrão se enfurece, se desfigura, se inflama:
— “Froxo. Maricas. Tudo bem. O que leva ai nessa sacola?”.
— Marmita.
— “E o que tem nela? Feiz um barulhu diferente quando bateu no chão. Apostu qui devi de sê alguma joia de valor!”.
Sansão se ajoelha, as mãos em prece. Suplica bruxuleante como uma luz tênue prestes a se apagar:
— Meu amigo, é só uma marmita vazia. O que produziu o estardalhaço foram o garfo e a faca que eu coloquei dentro. Trago os talheres de casa para ajudar a bater o rango. Arroz com ovo cozido e pedaços de banana frita...
— “Arroiz com ovu? Banana frita?!”.

— Juro que falo a verdade. Quero chegar em casa e encontrar minha mulher e minha filhinha sem vida, se estiver mentindo...
— “Tá legal, meu chapa. A cartera. Manda aqui pro papai”.
Com uma cambaleância (6) forte nas pernas e o receio de ser morto estampado nos olhos, Sansão mete a mão na algibeira caída e puxa um saquinho plástico. Dele retira uma bolsinha com fechadura e divisões. De posse, o elemento remexe e vascoleja (7) os pertences minuciosamente.

Encontra o bojo recheado de vales-transportes, um amontoado de carnês, um pacotinho de camisinhas vencidas, retratos da esposa, da filha recém-nascida e, bem dobradinha, uma nota de R$ Um Real, tão amarrotada e puída, que dava a impressão de ter circulado no tempo em que o Titanic ainda nem havia sido lançado ao mar:
— “Puta qui pariu! Qui lástima, que miséria, que pobreza, que vida mais infami a sua. Afinal, malandragi, que apitu toca na vida?”

Sansão, a voz embargada:
— Trabalho numa empresa que fabrica cartões de crédito. Sou supervisor. Tomo conta de uma turma de moças que labuta na produção. Meu encarregado, hoje, me pediu...
— “Não queru sabe. Apenas mi diga o qui é essa produçãum de cartãum de crédito...
— A empresa fabrica cartões de crédito por encomendas para uma porção de bancos e lojas de departamentos famosas. No caso da firma que eu presto serviços, supervisiono se os cartões não saem com algum defeito...

— “Manero! Apostu que você tem um... passa o cartãum e dá a senha”.
— Amigo, eu não tenho cartão — explica num gesto fatigado e embaraçoso. O que eu possuía, perdi em vista de ter pago a minha faculdade. Ai a fatura seguinte chegou, eu não resgatei, depois veio outra, e mais outra, o saldo devedor se acumulou e eu acabei sem o benefício:
— “Facurdadi? Se feiz facurdade?!...”.

— Sim. Sou formado, mas não exerço a função...
— “Uau! É formadu? Cursô uma facurdadi! Di que, merda? Vamus desembucha... o nobre aí é formadu e eu queru sabe em quê?!...”.
— Em direito. Sou advogado...
Como se movido por uma mola invisível, o punguista valentão guarda a arma. Encara Sansão nos olhos, enquanto devolve o relógio, o cordão, a pulseira e, por fim ainda ajuda o azarado a recolocar a marmita e alguns pasteis de volta à sacola.

Em seguida, com ênfase, grita, aliás, berra eufórico:
— “Devogadu? Sériu, meuirmão?!... quala facurdade? Por aqui temo duas”.
— A São Lula de Caetés. Turma do ano retrasado...
— “Você por acasu foi alunu da falicida professoura dona Marisa Letícia?”.
— Sim!
No instante seguinte, o desordeiro se põe em guarda. Pede a Sansão que “se adiante sem olha pra trais”. Ato contínuo, se oculta, de novo, trepando ligeiro na árvore de onde havia pulado.

Notas de rodapé:

1) Lasso – Esgotado, cansado.

2) Perscrutando – Investigando alguma coisa de maneira minuciosa.

3) Obsta – Aquele que se opõem contra causando embaraços.

4) Grunhi – No sentido do texto, soltar ou emitir sons semelhantes a certos animais.

5) Agastado – Zangado, encolerizado, grosso modo, pê da vida.

6) Cambaleância – Andar de maneira cambaleante, desequilibrada, como se tivesse bebido em excesso.

7) Vascoleja – Agita, mexe, sacode.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. 7-10-2022

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