terça-feira, 24 de janeiro de 2023

A União Europeia como um fundo de pensão

Theodore Dalrymple


Creio que a resposta seja óbvia: a União Europeia funciona como um gigantesco fundo de pensão para políticos defuntos, os quais ou não conseguem ser eleitos em seus próprios países ou já estão muito cansados para tentar. É uma forma de os políticos permanecerem importantes e poderosos no centro de uma rede clientelista, depois de terem sido derrotados, ou de perder a disposição para passar pelos rigores do processo eleitoral.

Uma das características da moderna vida política é a sua profissionalização, de modo que ela atrai, principalmente, um grupo de pessoas com tamanha avidez por poder e autopromoção que não se importa de ter de passar pelas humilhações provocadas pela exposição pública, às quais essa pessoa ficará inevitavelmente sujeita.1

Esse tipo de pessoa se parece cada vez mais com Lloyd George, o primeiro-ministro britânico. Cera vez foi perguntado a John Maynard Keynes como ele poderia descrever Lloyd George sozinho num cômodo. “Quando Lloyd George está sozinho num cômodo”, respondeu Keynes, “não há ninguém lá.”

Parece que cresce a quantidade de pessoas com esse perfil, as quais derivam o seu senso de identidade exclusivamente de um público ou uma plateia, preferivelmente de milhões de pessoas.

Ninguém morde a mão que o alimenta, tampouco aquela que poderá alimentá-lo daqui a algum tempo, num futuro breve, e especialmente quando existem mãos tão generosas como as da União Europeia. É possível identificar um sujeito que come na mão da EU a um quilômetro e meio de distância.

Por longo tempo esse sujeito esse sujeito vê o mundo pelos vidros de limusines oficiais, almoça e janta fartamente durante muitos anos (nunca com o próprio dinheiro, é claro) e desenvolve uma langue de bois toda especial, na qual fraseados gramaticalmente solenes são cuidadosamente pontilhados com palavras de conotação positiva, tornando difícil qualquer argumentação contrária.

Este é um tipo de sujeito que desenvolveu aquele semblante cínico, típico dos antigos membros do Politburo soviético. É lamentável, mas parece que há um grande número de voluntários – a maioria medíocres, é claro – para esse tipo de vida. Para essas pessoas, essa seria a forma eminentemente preferível de ganhar a vida.

Como consequência, mesmo aqueles  que começam com uma predileção contrária ao projeto europeu logo descobrem, depois de um ou dois reembolsos, que afinal de contas a coisa não é tão ruim assim. E qual político carreirista poderia se opor completamente a uma organização de políticos e burocratas cujos orçamentos nunca foram aprovados pelos auditores?

Esperar que os políticos abolissem uma organização tão esplêndida em benevolências para a sua classe seria o mesmo que ver uma federação de açougueiros votar pela implantação do vegetarianismo compulsório.

1 Isso explica o motivo pelo qual se percebe na Grã-Bretanha uma crescente diminuição de políticos com sentimento de honra. Não há mais algo como renunciar ao cargo em nome do bem público e cair em desgraça depois de ter sido pego com a boca na botija, ou coisa do gênero. A renúncia dura somente até diminuir a sensação e o furor causados pelas revelações dos atos ilícitos; depois dos quais, o público, mais uma vez distraído por milhares de outras sensações e escândalos, simplesmente esquecerá o que se passou. Então, o político voltará sorrateiramente ao cargo. Com toda a cara de pau e cabeça erguida, ele não se sentirá em desgraça, apenas incomodado. Na melhor das situações, ele agirá como se estivesse em desgraça, mas apenas durante o mais breve período possível, e apenas para causar impressões.

Título e Texto: Theodore Dalrymple, in “A nova síndrome de Vichy – Por que os intelectuais europeus se rendem ao barbarismo”, É realizações Editora, 2016, páginas 117 a 119. 
Digitação: JP, 24-1-2023

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