sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Volte, Descartes, precisamos de você


Theodore Dalrymple

Há duas origens do relativismo: abstrata e empírica. Se em princípio você não pode fundar ou estabelecer qualquer fato – estético ou de julgamento moral – sobre uma indubitável e metafisicamente correta premissa que todo ser racional possa aceitar sem antes cair em autoevidente contradição, então decorre que todos os fatos e julgamentos se encontram em fundação segura e, portanto, são vulneráveis à crítica. Na realidade, nenhum julgamento pode ser privilegiado em relação a qualquer outro, ao menos não em meros termos evidenciais.

Portanto a escolha entre eles permanecerá arbitrária. Daí se define que aquilo que determina a crença de um homem – tanto faz se isso se refira a um fato ou a um julgamento moral ou estético – nunca poderá ser critério para uma avaliação honesta da evidência contra ou a favor. O que conta é aquilo em que o sujeito quer acreditar; e aquilo em que quer acreditar é, por sua vez, determinado por seus interesses materiais ou psicológicos, conforme for o caso.

Sem dúvida, nenhum homem vive, ou mesmo poderia viver, como se o relativismo epistemológico fosse verdade, ou como se julgamentos morais e estéticos fossem apenas expressões de uma preferência pessoal ou de uma vontade de poder. Não apenas um ceticismo radical como esse é psicologicamente impossível (ninguém seria capaz sequer de preparar um chá, caso adotasse um ceticismo radical em sua vida concreta) como, também, cai mais ou menos na mesma contradição em que se viu o positivismo lógico.

O positivismo lógico defendia que, por um lado, ou as afirmações seriam empiricamente verificáveis ou seriam tautológicas (isso quer dizer verdadeiras pela definição dos termos no sujeito e no predicado) ou, por outro, estariam desprovidas de sentido, ou seja, meras baboseiras que podem, ou não, encontrar um formato exprimível em sentenças corretas à luz da gramática, mas que não se referem a nada fora de si mesmas, não sendo inerentemente nem verdadeiras nem falsas.

O problema para o positivismo lógico era que sua própria doutrina não era verificável nem empírica nem tautologicamente, portanto sofria do mal que acusava. Desse modo, caso isso fosse verdade, o positivismo lógico também não teria sentido fora de si mesmo e, como consequência, segundo suas próprias proposições, não poderia ser nem verdadeiro nem falso.

É certo que a alegação dos relativistas não é uma bobagem defendida com cautela por pessoas profundamente inseguras consigo mesmas. Os relativistas fazem afirmações que baseiam sua força em sua absoluta verdade. Por exemplo, uma escola de relativistas ressalta o fato de as teorias científicas serem apenas provisórias a fim de negar à ciência um estatuto de conhecimento superior, ou seja, de ser uma justificada e verdadeira crença, ou de alcançar qualquer status especial; e alguns vão ainda mais longe, baseando-se no trabalho histórico-filosófico de Thomas Kuhn, que afirmava que os cientistas mudavam suas teorias não segundo as evidências, ou porque as evidências exigiam, mas por uma grande variedade de outras razões: psicológicas, econômicas, institucionais, etc.

Sabendo-se que sempre existirá mais do que uma teoria que se destina a dar conta de um fenômeno, a escolha entre elas é arbitrária, uma questão mais de gosto que de verdade. (A posição da Navalha de Occam segundo a qual as teorias têm de ser o mais simples possível na explicação daquilo que se dedicam a explicar é ambígua. Assemelha-se mais à dica de um chef de cozinha sobre como cozinhar com eficiência do que uma regra lógica ou a uma verdade contingente sobre o mundo.

Afinal de contas, por que a teoria mais simples deveria ser sempre a melhor? Na medicina, os médicos tentam explicar os sintomas de um paciente ao diagnosticar uma única doença que satisfatoriamente os elucide, mas às vezes os pacientes têm, de fato, mais que uma doença, e isso ocorre independentemente de o diagnóstico simplificado explicar ou não todos os sintomas. A maior parte dos médicos já foi enganada, em algum momento de sua carreira, pela beleza e elegância de sua teoria sobre o que há de errado com um paciente.)

Título e Texto: Theodore Dalrymple, in “A nova síndrome de Vichy – Por que os intelectuais europeus se rendem ao barbarismo”, É realizações Editora, páginas 67, 68 e 69. 
Digitação: JP, 20-1-2023

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Um comentário:

  1. Ou seja amigo Descartes. Você não está Descartado.
    Aparecido Raimundo de Souza
    de Santo Eduardo, Rio de Janeiro.

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