domingo, 22 de janeiro de 2023

[As danações de Carina] ...e tudo passou!

Carina Bratt

DONA MARIA AUGUSTA, formada em Serviço Social, não tinha lá muito conhecimento em matéria de poesia. Pessoinha simples, cuidava dos filhos, da casa, do marido, dos cachorros, e, nas horas que sobrava um tempinho, escrevia pequenos mimos. Sua cultura, em se tratando de literatura, era pouca. Seus conhecimentos pequenos demais; sequer chegavam ao ‘mínimo do mínimo’.


Entretanto, a simplicidade de suas palavras encantava. Sem rebusques, sem métrica, simplesmente se sentava debaixo de um dos muitos pés de bananeiras, onde morava, na rua do antigo curtume. Olhando para o rio que passava silencioso nos fundos da sua casa, um leito de águas extravagantes, que mudavam as cores. 

Ora a correnteza sorria em azul, ora se fazia vermelho, ora ficava totalmente negro (em face da curtição e do preparo do couro), não fazia diferença. Pegava seu caderninho de apontamentos, corria, afoita, para a sua velha cadeira de balanços, se acomodava e dava asas à imaginação. 

Quero...

Quero um olhar que me envolva com doçura,
uma mão que me toque com calor.
Alguém que me queira e me deseje,
e que me busque simplesmente por amor. 

Quero um coração que bata forte 
pela emoção de estar junto a mim.
Que sinta prazer com meus beijos 
e que me faça também se sentir assim... 

Quero alguém que comigo compartilhe 
sua vida, seu amor, sua emoção,
alguém para eu entregar de verdade 
meu corpo, minha alma, meu coração.

Quando nasceu Bruno, o primeiro neto, dona Maria Augusta escreveu:

Doce criança

Criança, Anjo menino, 
chegou entoando canções 
alegrando os corações 
daqueles que lhe esperavam, 
Inquietos e desejosos... 

Dei-lhe de comer com ardor, 
de beijar o seu rostinho, 
de lhe afagar com carinho 
e lhe proporcionar somente amor... 

No caminho desse príncipe, 
luzes sempre vão brilhar. 
E a cada dia de vida, 
Dessa pequena criança, 
Deus há de abençoar! 

Menino, doce criança 
Sempre amado você vai ser, 
O Senhor me deu um Anjo 
Amigo e companheiro 

Um Anjo 
Para sempre nos proteger 
Com ele estarei segura 
Ele vai nos guiar 
para uma vida plena e segura. 

Quando encontrou seu grande amor, Áttila Botelho de Freitas, não deixou por menos. Pegou caneta e papel e deu vida a:

Não sou eu.

Quem disse que eu era fria, 
que nunca amei ninguém 
e que não retribuía 
a quem me queria bem? 

Não! Isso não é verdade. 
Não, eu nunca fui assim. 
Vivia inquieta, esperando, 
alguém que gostasse de mim. 

Sem querer, mas querendo muito, 
ele um dia apareceu. 
Passou por mim... eu tremi!... 
ele me olhou e... aconteceu! 

Nos olhamos... nos sentimos... 
nos aproximamos, nos tocamos... 
nos lançamos... nos definimos... 
e selamos, sem pudor 
o nosso caso de amor! 

Hoje estamos felizes, 
cada um achou seu par, 
pois ele também procurava 
um alguém certo 
para amar. 

Dona Maria Augusta ficou casada cinquenta e seis anos com Áttila. Teve com esse jovem quatro filhos: Lígia, Lísia, Lícia e Áttila Jr. Após a sua morte, nesse começo de 2023 as filhas juntamente com seus maridos e netos, Bruno, Daniela, Leonardo e Bernardo, resolveram perpetuar as poesias bucólicas de dona Maria Augusta.

Deram, na verdade, vida a um livro de 78 páginas, com capa de Márcio ‘Guedes’ Azevedo Mascarenhas. Um livro composto e impresso por uma gráfica de renome na cidade, a ‘Cipreste’. Um opúsculo sem prefácio, sem editora, sem ISBN, sem correção, sem aquelas frescuras de uma editora renomada.

Foi desse livro que extraí essas passagens meigas e pastoris, quase sem brilho, todavia, edificantes. A meu ver, uma coleção infindável e magistral de pequenas inspirações que devem (ou pelo menos deveriam) ficar no coração e na alma de todos que conheceram pessoalmente a figura ímpar e notável de dona Maria Augusta Lyra de Freitas, nascida aos 03 de julho de 1933.

Minha singela homenagem a ela. O nome do livro? ... E tudo passou! Mantive o mesmo nome para, igualmente, subscritar às minhas ‘Danações’ de hoje. Feliz domingo a todas as minhas amigas e leitoras da imensa ‘Família Cão que Fuma’.

Título e texto: Carina Bratt, de São Mateus, Espírito Santo, 22-1-2023

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