domingo, 8 de janeiro de 2023

[As danações de Carina] Inquérito nativo

Carina Bratt  

CREIO, DAQUI para frente, deverei permanecer calada, sem falar nada, sem dizer coisa alguma. Acredito, terei que passar os meus dias vindouros trancada, aprisionada, esquecida, deturpada, corpo e alma, alma e corpo numa mudez estática, desanimada e infeliz. Macambuziada (1), como se o mundo tivesse acabado.  

Olhando assim, a mim me parece que, de certa forma, o magnânimo se findou. Tudo se expirou. Penso, mesmo, que o ciclo se completou desemborcando numa morte repentina e inesperada. Foi tudo muito rápido. Num assim do nada, num picar de olhos, o belo se extinguiu. Foi para o espaço, virou estrela apagada dentro de um infinito artificioso e sem nenhuma presunção de grandeza. 

Se dissolveu no ar?  Certamente! De repente me vi sem chão. Decaída, ao rés da vida. À margem do acaso, do desconhecido. Dentro dele, o incerto se fez confuso e impreciso e pior, à revelia da minha vontade.  Do nada, me flagrei sem eira nem beira, sem um Norte a ser adotado como ‘porto-ponto’ de descanso.  

O Sul ficou fora do alcance, o Leste se deixou levar pelo vento forte e o Oeste, ah, o Oeste sequer me legou uma trilha (ainda que à deriva) para que eu pudesse me juntar sem perder os meus passos, as minhas referências e registros. Imagino que meus passos, em algum lugar lá atrás (não sei exatamente onde), se desviaram do carreiro (2) traçado. 

Uma interferência imprevista, brusca, inoportuna e abrupta ‘destraçou’ (3) a minha rota e me fez seguir por outra senda. Uma estrada fústiga (4) que sequer eu sabia ou imaginava pudesse surgir à minha frente.  A profundidade óbvia do meu espanto me leva a crer e não só a crer, igualmente, a acreditar, que estou ‘no mato sem cachorro’. 

Por azar, além do ‘mato sem cachorro’, à contumácia barata e à sanha perniciosa de um tempo não esperado, bem ainda aos desvarios de um destino bárbaro e cruel, impiedoso e lancinante me deixa em desespero. Olhando para alguns desencontros logo à frente, percebo alguns estereótipos horríveis e insondáveis. Sem que eu queira, meu cérebro sai pelas minhas entranhas e eu, num instante, me sinto um bichinho arredio tentando encontrar alguma coisa que não sei precisar exatamente o quê!  

Essas loucuras que me abraçam, aparecem sem aviso prévio. Nada que tivesse ou tenha programado ou imaginado. Enquanto isso, no peito, meu coração duela com as batidas fortes e descompassadas que teimam em tirá-lo do sério. Me sinto perdida, jogada às traças, como se tivesse cometido um crime indigno e torpe, depravado e asqueroso e, por conta, sofresse um processo meio que aborígene (5). Aborígene? Isso mesmo: aborígene. 

Devo ter bebido alguma coisa em demasia. Uma poção mágica tipo um vinho secular que me deturpou a mente e corrompeu meu ‘eu interior’ além do que carecia. O que faço? Que atitude tomar? Não imagino! Todas as minhas terminações nervosas estão em estado de alerta máxima.  Surge, em mim, uma ideia. Uma ideia, ou um pensamento?  

Um pensamento, ou uma ideia?  Não seria uma percepção desconexada (6) e destoada da realidade? Não dá para saber! Não agora, nessa altura do campeonato. Contudo, de uma coisa tenho plena certeza: existe uma vontade fragmentada, incompleta, fora do prumo em meu peito. Porém, muito palpável e real. E o que é?! 

Nada além de um pontinho conciso e robusto, inegável e formal. Em verdade, em resumo, eu quero... eu preciso... euzinha necessito deixar de existir. Sair de cena, me afastar definitivamente da vida. Parar de viver, de seguir, de respirar, de Lutar, de pelejar, de me desdobrar em mil. Eu quero, em epítome, em abreviação, M O R R E R.  

Notas de rodapé: 
1) Macambuziada – Acabrunhada, melancólica. 
2) Carreiro – Atalho ou trilha. 
3) Destraçou – Descruzou, desconstruiu. 
4) Fústiga – Variante de tudo o que fustiga ou causa dor e sofrimento. 
5) Aborígene – Nativo, primitivo. 
6) Desconexada – Desunida, confusa. Não pensada. 


Título e Texto: Carina Bratt, de Vila Velha no Espírito Santo, 8-1-2023

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Lembranças das minhas babuchas de camurça 
Tudo por analogia 
Irmanados e a semelhança de um pequeno grande cachorro, venceremos toda a matilha que nos rodeia 
Eu só queria saber...

2 comentários:

  1. INQUÉRITO DATIVO:
    Dativo é um adjetivo gramatical geralmente usado para indicar o nome dado a algo. O termo deriva do latim dativus, significando "próprio ao ato de dar". A coisa dada pode ser um objeto tangível — como "um livro" ou "uma caneta" — ou alguma coisa abstrata, intangível, como "uma resposta" ou "uma ajuda".

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  2. Achei o texto maravilhoso. Carina, a cada dia me surpreende com seus escritos maravilhosos e bem burilados. Se "dativo" ou "nativo", se "nativo" ou "dativo", o que importa, para mim, é a maviosidade das palavras, a grandiosidade de uma menina que praticamente veio trabalhar comigo ainda uma jovenzinha saída do seio familiar cujo pai militar rezou um terço antes que fizéssemos a nossa primeira viagem. A beldade está comigo faz doze anos. E acredito, escrevinha, digo escreve melhor que eu. É sutil, versátil, clara, concisa, elegante no linguajar... um brilhante que foi se lapidando através dos anos. Carina todo dia me Bratt em cheio no coração e me faz ficar cada vez mais apaixonado pelo que escreve. No texto acima, contudo, senti uma pontinha de tristeza em seu linguajar. Costumo dizer que nos fiapos da toalha, seu perfume inebriante ainda se contorce... e banha seu frescor nos cafundós do meu nariz. Carina é uma sombra teimosa: esticou, engordou, cresceu e quase sumiu de encolhida, mas não largou do meu pé. Por ela, sempre por ela, sob a minha cama, gemem camadas de sono pouco usadas.
    Por isso, seu seu fã.
    Aparecido Raimundo de Souza
    do Sítio Shangri-lá, um lugar perdido no meio do nada.

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