segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Secularização

Theodore Dalrymple

A secularização da Europa é mais do que evidente. O longo e melancólico rugido de afastamento da religião, como colocou Arnold Mathew, não é mais um rugido, e mal chega a ser um murmúrio. Hoje em dia, na França, a mais importante e antiga filha da Igreja, menos que 5% da população frequenta regularmente as missas.

Foto: Stefano Corso, Roma, abril de 2005

Já faz algum tempo que a igreja nacional britânica se tornou um alvo costumeiro de deboche e chacota entre os membros da classe educada e da elite intelectual, e o atual arcebispo de Cantuária aviva o espetáculo dessa derrocada ao conferir forma e substância à completa estupidez, de onde se vê uma espiritualidade sem sanidade, embora com um bocado de hipocrisia.

No País de Gales, onde o cristianismo não conformista representou a influência moral e cultural dominante, a maior parte das capelas do país já foi convertida em residências particulares por arquitetos e decoradores. Num domingo de manhã, é muito maior a chance de encontrara um galês no supermercado do que na capela; a imensa quantidade de escritos petistas, tanto na Inglaterra quanto em Gales, está agora mofando nas prateleiras dos sebos, muitos dos quais estão fechando as portas.

Na Holanda, alguns elementos da religiosa pilarização do Estado permanecem: por exemplo, canais de televisão governamentais ainda são alocados a protestantes e católicos. Mas embora ainda exista um invólucro de pilarização religiosa, sua substância já se foi. No que se refere aos canais de TV, hoje em dia não se discerne facilmente o canal católico do protestante.

Talvez a Irlanda seja o exemplo mais gritante de secularização da Europa, uma vez que é temporã nesse processo. Todavia, aqueles cujo desenvolvimento tarda dão, frequentemente, pupilos muito capazes; aprendem rápido e chegam mesmo a superar os seus mentores. Não faz muito tempo, o catolicismo era essencial para a identidade do irlandês, e não por acaso tendo-se em vista o longo domínio de uma minoria protestante. Quando fui à Irlanda pela primeira vez, o padre era uma espécie de divindade entre os homens, e as pessoas abriam caminho quando ele passava; todo mundo queria, ao menos, um padre na família, e um bispo irlandês se assemelhava a um sátrapa local. Nenhuma família de respeito carecia de ao menos uma freira entre os seus.

Em relação ao arcebispo de Dublin, sua palavra era lei; os políticos propunham, mas era ele quem liberava ou não. Na prática, ele tinha poder de veto sobre qualquer legislação.

Entretanto, num piscar de olhos da história, tudo isso se foi, sem qualquer esperança (ou temor) de restauração. Não seria exagero dizer que a Igreja é hoje insultada na Irlanda, ao menos pela classe de pessoas que em última instância dita o tom de uma sociedade, isto é, a intelligentsia metropolitana.

Suspeito que se hoje fizessem na Irlanda um teste de associação de palavras com a palavra “padre”, seria mais frequente do que o contrário encontrarmos respostas como “pedófilo”, “molestador infantil”; ou (na melhor das circunstâncias) “hipócrita”.

Sem dúvida, em parte a culpa é da própria Igreja, em razão do repúdio que sofre. De fato, a Irlanda se viu controlada de forma opressiva pelos padres desde sua independência, e a Igreja se mostrou interessada demais no poder temporal, impondo sobre o Estado suas visões a respeito de qualquer assunto.

Uma Igreja que esteja intimamente identificada com qualquer regime político em particular ou com qualquer ordem socioeconômica sofrerá problemas quando (como mais cedo ou mais tarde sempre acontece) houver uma mudança no regime ou na ordem, como ocorreu na Irlanda durante o final da década de 1980.

Nacionalismo econômico e autarquia deram passagem a um acentuado processo de abertura ao mundo, com enorme sucesso econômico, e a Igreja foi acusada de ter impedido o progresso irlandês por cerda de oitenta anos, por causa de seu obscurantismo. Da mesma forma importantes foram os escândalos sexuais envolvendo os padres pedófilos, e a Igreja tentou acobertá-los, minimizá-los ou mesmo negá-los.

Esses escândalos e a forma desonesta adotada pela Igreja para lidar com a situação foram avidamente usados pelo partido anticlerical; mas suspeito que essa animosidade contra a Igreja fosse anterior aos escândalos, os quais foram um mero pretexto para que se pudesse atacar uma instituição até então invulnerável. Acho improvável que numa sociedade como a irlandesa a constatação sobre o comportamento criminoso de alguns padres viesse a ser total surpresa, como algo novo e completamente insuspeito.

Seja como for, todos os padres foram taxados como farinha do mesmo saco, de modo que muitos deles, ao menos em Dublin, começaram a evitar andar em público com a vestimenta de padre 1. Até encontrar padres em Dublin andando à paisana, eu jamais vira um padre sem o seu manto clerical de uso diário; e (o que é certamente uma das reviravoltas mais extraordinárias da história recente) hoje em dia, um padre católico romano talvez se sinta mais à vontade na Inglaterra do que na Irlanda, menos preocupado com a possibilidade de enfrentar hostilidade ou desrespeito.

A secularização da Irlanda é apenas mais uma instância da secularização geral – muito mais longa em seu desenvolvimento – a envolver toda a Europa Ocidental. As taxas de natalidade extremamente baixas da Espanha e da Itália, as menores já registradas numa sociedade moderna, sugerem que as populações desses países de tradição católica não dão muito ouvido aos ensinamentos de suas igrejas.

Por todas as terras católicas as congregações definham, e são poucos os que têm vocação para a vida eclesiástica, o que gera taxas de reposição muito abaixo dos níveis mínimos de substituição; e os padres têm de ser agora importados do Terceiro Mundo.

Há pouco temo na Bélgica, vi um antigo e venerável convento onde as poucas freiras remanescentes tinham todas por volta de oitenta anos e nunca seriam substituídas. Quando morressem, seu convento possivelmente seria transformado num condomínio de apartamentos de luxo voltado para profissionais solteiros e sem filhos.

Assim, a  abordagem religiosa em relação à vida que descrevi anteriormente é hoje tão estranha para os europeus modernos como a que vem do zoroastrismo ou do zen-budismo, ou seja, não faz parte de seu mundo mental. Nesse quesito um forte contraste é apresentado com frequência entre a situação na Europa e nos Estados Unidos.

Os americanos teriam supostamente retido uma perspectiva muito mais religiosa sobre a vida do que os europeus. Contudo, creio que essa distinção seja mais tênue do que por vezes se alega, considerando que há muito pouco na religiosidade americana atual que sugira uma verdadeira ou permanente crença em vez de mero conformismo social. Em suas atitudes perante a saúde, a doença e a morte, por exemplo, eles não diferem muito dos europeus; tampouco se mostram muito diferentes de como viveriam caso não professassem uma crença em Deus.

Para o bem e para o mal, Deus está morto na Europa, e não vejo  muita chance de um retorno, exceto no despertar de uma calamidade. Nem tudo foi perdido da atitude religiosa, entretanto; os indivíduoa ainda têm a si mesmos como absolutamente importantes, mas sem a contrapartida  da humildade gerada por um sentido de obrigação perante o criador, um ser que não se concebe mais profundo.

Longe de induzir uma autoimagem mais modesta no homem, a perda da crença religiosa inflamou sobremaneira seu senso de importância e engrandecimento pessoal.

1 No México, desde a revolução, os padres foram proibidos por lei de aparecer em qualquer lugar com seus trajes tradicionais, exceto dentro das igrejas. No entanto a Irlanda é certamente o primeiro país nos tempos modernos e em época de paz, na Europa Ocidental, em que os padres sentem de fato medo de proclamar sua vocação.

Título e Texto: Theodore Dalrymple, in “A nova síndrome de Vichy – Por que os intelectuais europeus se rendem ao barbarismo”, É realizações Editora, 2016, páginas 86 a 89
Digitação: JP, 23-1-2023

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