sábado, 21 de janeiro de 2023

[Versos de través] Os Justos

Jorge Luis Borges

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire. 
O que agradece que na terra haja música. 
O que descobre com prazer uma etimologia. 
Dois empregados que num café do Sul jogam um xadrez silencioso. 
O ceramista que premedita uma cor e uma forma. 
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade. 
Uma mulher e um homem que leem os tercetos finais de certo canto. 
O que acarinha um animal adormecido. 
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram. 
O que agradece que na terra haja Stevenson. 
O que prefere que os outros tenham razão. 
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.


Jorge Luis Borges

Anteriores: 
Amor é fogo que arde sem se ver 
Feliz Natal! 
“O Pão Maldito”, de Guy de Maupassant (poema traduzido) 
The sorrow of love 
Eu sei que vou te amar

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