sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

[Aparecido rasga o verbo] Miniatura homérica

Aparecido Raimundo de Souza

A CONFUSÃO
começou quando o homenzarrão resolveu descer do ônibus pela porta da frente. De cara, atrapalhou aqueles apressadinhos que mal vendo o coletivo encostar, pulam igual pipoca, querendo embarcar, como se fossem os donos do pedaço. E não só isso. O guarda-roupas embutido, amassou, com força total, o pé de um anão que, igual aos demais, se misturava ao desordeno (1) de uma súcia (2) em polvorosa. Por assim, os alvoroçados que ingressavam colados nele, tiveram que, a contragosto, dar um passo atrás.

Com o engasgo repentino do enxame, houve um princípio de tumulto, que prometia dar pano paras as mangas. E deu. O pesadão não viu, de fato, o nanico (um desses seres mirrados e pequenininhos), tipo aqueles personagens da história da Branca de Neve. Um lancinante grito de dor e agonia encheu o ar enquanto uma chuva de palavrões estuporou (3) os ouvidos dos passageiros. Sem perceber a quem endereçava, mandou um pedido de desculpas: 
— Perdão, meu chapa. 
— Perdão uma ova — gritou, espumando, o seco, numa expansão distorcida: Por que não olha onde enfia essa maldita lancha? 
— Cidadão, fique calmo. — Obtemperou zeloso, o agressor, ao identificar a criatura. — Estou pedindo educadamente que me perdoe. Eu não vi o prezado...
— Como não? — Acaso sou assim tão atrofiado e invisível, que o senhor não conseguiu me distinguir em meio a um emaranhado de pernas e sapatos?
O motorista dando uma de concierge (4), querendo fechar a porta e seguir viagem tentou apaziguar:
— E ai, meu camarada! Vai descer ou não? 

Em contínuo, se dirigiu ao pigmeu. Inquiriu: 
— E o senhor? Por acaso vai trepar ou desocupará a moita? 
Uma idosa, que caroneava nas costas do brutamontes, aproveitando a deixa, resolveu engrossar. Fuzilou, costurando: 
— Meu senhor, quer tirar seu Fenemê da minha beira e me dar licença? 
O guenzo (5), todavia, colérico e tempestuoso, estancado nos degraus parecia resoluto. Deblaterou (6), cuspindo marimbondos: 
— Licença coisa nenhuma, dona. Ninguém aqui desce ou sobe. 

O parrudo, com toda calma do mundo, argumentou: 
— Já fiz o que devia companheiro. Agora, por favor, saia do caminho. Quero me livrar desta lata de sardinhas onde todos tentam ir para lugar nenhum. Vamos ser coerentes. 
O mixirra (7), empacado, não desistia. Soltava fogo pelas ventas e parecia prestes a ter um treco. Lembrava um atirador de elite no momento em que acionava o gatilho da arma e o danado mascava: 
— Quer dizer que o senhor não me viu? Desembuche, vamos, vomite... é cego dos pés?! 

— Cavalheiro — voltou a clamar a velhinha mais colada ainda no cangote do polhastro (8) — Preciso passar... 
— Calma vovó — berrou o espadaúdo. — Não está vendo que tem um “mosquito” na minha frente? 
A sessentona rodou a baiana. Subiu nas tamancas. Soltou os cabelos. Deu, como se diz, grosso modo, piti (9): 
— Escuta aqui, ô saco de merda sem fundo... vovó é a puta que te pariu...
— Deixe sua mãe fora disso...
— Minha não, sua.

O filhote de meio quilo, ultrajado na sua apequenada honra, e mais, espezinhado na minguada e débil moral, diante dessa nova discussão criou mais coragem e determinação. No báratro (10) da alucinação, levado talvez pelo fato de ter sido alcunhado de “mosquito”, engrandeceu a teimosia. Sua tez, de amarela, passou para vermelha, e depois se desfaz numa brancura tão alva, como flocos de espuma. Ao contrário do que todos esperavam não se intimidou pela altura da criatura na sua frente.

O rinoceronte, baseado ao lado do motorista e com os pés no capô do motor, farpeava (11) com a senhorinha que insistia em bufar no seu cangote. Visto pelo liliputiano (12), o opositor lembrava a CN Tower em Toronto, no Canadá, devido ao fato de estar no cimo dos degraus. Com uma perna dentro do coletivo e outra na calçada, o filhote de rodapé, em completa desconformidade com a sua atrofia, batia com as mãos fechadas na porta. Os passageiros, querendo o fim da fuzarca, e ansiosos por voltarem para seus lares, iniciaram uma sessão de alaridos desenfreados, recheados de impropérios os mais bárbaros e cabeludos:

— “Toca esse cagalhão, motorista!” — Vociferou um:
— “Pé na tábua, filho de um corno” — grunhiu outro:
— “Esse filhote de meio quilo que se foda!” — Latiu um senhor montado numa cadeira de rodas amarrado naquela área destinada aos cadeirantes.
Enquanto as ofensas e afrontas tomavam vulto, o metido a Burj Khalifa (13) continuava a trocar imoralidades, não só com o miudíssimo, como com a antiga, enrodilhada na sua retaguarda. Até que, de repente, o caldo ferveu. E no minuto seguinte, derramou:
— Olhe aqui, seu filhote de cruz credo...

O apelidado de filhote de cruz credo, se enfureceu:
— Filhote de quê?
— De cruz credo!
— Isso eu não admito. Não levo esse desaforo para casa. Estão vendo? Essa tampinha de “refri” fere a minha dignidade e alfineta meu decoro, de sobremesa. Sou grande, é verdade, mas não sou filhote de cruz credo. Aceito ser chamado de tudo: de elefante, de troncudo, até de veado e chifrudo, mas de filhote de cruz credo, jamais. Me vejo obrigado a devolver a afronta. Lá vai: Diga ai, ô banana de King Kong, de onde você tirou isso? Canta pigmeu de uma figa? Acaso veio da Caverna da Caveira, onde vivem o Fantasma e seu amigo Capeto?!

O mirrado, completamente cego de raiva, e alcunhado de pigmeu, e pior, troçado de mosquito, banana de King Kong, e, para completar, tampinha de “refri”, multiplicou por mil, a exaltação colérica. Inspirado numa valentia insana e tombado em face dos desbordes (14) dos impropérios recebidos, perdeu as estribeiras, a compostura, o medo. Como impulsionado por molas, baixou nele uma espécie de meltdown (15). Em vista disso, apesar do espaço exíguo, subiu buzu acima e, nesse embalo, partiu, resoluto, valente, intrépido, insuflado, com tudo, para o confronto tête-à-tête com o adversário, afoito, como uma onça feroz, em peleja de morte em face de um predador iminente.

Num abrir e piscar de olhos, o mergulhador de aquário se travestiu na pele do Zangado. Meteu porradas sem dó nem piedade no imponente e vetusto paquiderme. Conseguiram apartar os contendores da arenga (16), quando, viaturas da polícia militar, milagrosamente pintaram no pedaço e uma leva de soldados armados invadiu o coletivo, restabelecendo a ordem e a paz. Só assim, após a prisão dos rivais, e um jejum de duas horas e meia na delegacia, para registro do BU (Boletim Unificado), com os reclames e protestos dos passageiros, ao condutor foi devolvida a tranquilidade de seguir viagem.

Notas de rodapé: 
1) Desordeno – Desarrumação ou bagunça. 
2) Súcia – Corja, cambada. 
3) Estuporou – Degenerou ou avariou. 
4) Concierge – Espécie de porteiro graduado, que faz de tudo um pouco. 
5) Guenzo – Pessoa muita magra e fraca. 
6) Deblaterou – Gritou, berrou. 
7) Mixirra – Qualquer pessoa sem importância. 
8) Polhastro – Mocetão, rapagão, homem grande. 
9) Piti – Pessoa que tem, de um momento para outro, um distúrbio involuntário. 
10) Báratro – Abismo, precipício. 
11) Farpeava – Bandalhava. 
12) Liliputiano – Terra de pessoas minúsculas. 
13) Burj Khalifa – O maior prédio do mundo. 
14) Desbordes – Aquilo que está muito cheio. 
15) Meltdown – Colapso ou dificuldades em controlar certos impulsos. 
16) Arenga – Ladainha, confusão. 

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de São Mateus, Espírito Santo, ES. 20-1-2023 

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