sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

[Aparecido rasga o verbo] É mostrando que se recebe

Aparecido Raimundo de Souza

(de uma piadinha antiga, do tempo do ronca)

O PADRE BAITOLO LOUVADO cisma de pregar na parede do presbitério, colado ao quarto onde dorme e a cozinha onde faz as refeições, um quadro de Santo Antão. Chama pela Sandrinha, uma garota de quinze anos que ajuda na limpeza da paróquia para que lhe traga a escada.
Sandrinha prontamente obedece e se posiciona abrindo a geringonça (1) que lhe dará acesso ao lugar indicado pelo religioso:
— Sobe, Sandrinha! Tome cuidado para não cair e menos ainda para não derrubar a relíquia que lhe passarei às mãos. Repare! Está vendo aquele suporte? É nele que preciso que coloque esta preciosidade.

A menina, metida numa sainha curta, escala os degraus, ligeira, enquanto o frade (2) permanece embaixo segurando a peça, e, logicamente, olhando para cima. A hora de entregar a moldura, o penitente Baitolo Louvado perde as estribeiras e ralha com a infeliz ao tempo em que pede para que ela retorne sem carecer de levar à termo o pedido por ele formulado:
— Desce... desce daí... vamos, “destrepa” (3) imediatamente...

Obediente, a adolescente respeita o comando recebido e, enquanto retorna, encara os olhos do devoto do Altíssimo com medo de levar uns bons tabefes. Todavia, o confessor, ao invés de castigá-la, mete a mão no bolso da batina e lhe presenteia com uma nota de cem reais:
— Sandrinha, pelo amor de Deus... não faça mais o que acabou de colocar em prática. Que coisa feia! Consciente ou não, você pecou. Transgrediu as leis do Criador de forma inconcebível. Falaremos depois. Por agora, toma este dinheiro. Corre ali no bazar de dona Querubina e compra meia dúzia de calcinhas. Que tal fato não mais se repita...
A pérola nacarada agradece e sai às carreiras, sorrindo de um canto a outro da boca, em direção ao estabelecimento da mercadora (4). 

Em seguida, o asceta (5) Baitolo Louvado invoca à cozinheira, uma outra funcionária também sapeca, porém um pouco mais velha que Sandrinha, aí beirando pela casa dos vinte:
— Berta, ô Berta. Venha cá...
Surge, no umbral, a beldade, toda estrepitosa, radiante e sorridente: 
— Pois não, o senhor me chamou? 
— Sim. Sobe aqui e coloca naquele suporte este quadro. 
Berta não espera segunda ordem. Faz de tudo para deixar o cenobita (6) satisfeito. Assim que alcança o terceiro degrau, indaga, curiosa: 
— Quem é o cidadão?

— Frei Antão. Santo Antão do Egito. O Pai de todos os que seguem os desígnios da Igreja Católica Apostólica onde vive o Santo Papa, Francisco, em Roma.
Segurando o quadro e olhando para o alto, o Emissário do Onipotente está prestes a entregar a pintura. Todavia, ao mirar o trazeiro da incauta, com mais atenção, vocifera com todas as forças da sua voz grossa e empostada:
— Berta, desça daí. Ande, vamos, para baixo, rápido como quem rouba... venha, venha...

A pecaminosa acata a ordenação, risinho interrompido, o cenho franzido. O prelado (7) consulta o bolso da batina da sua vestimenta, e o faz muito brabo e visivelmente pê da vida. Exibe uma nota de cinquenta reais:
— Filha de satanás, corre ali na lojinha de dona Querubina e compra um creme qualquer que lhe agrade a pele e um pacote de prestobarba. Quando voltar, não faça mais nada. Pare tudo. Se tranque no banheiro e pelo amor que você tem em Jesus Cristo: só me saia de lá depois que se barbear como uma mulher pura e decente.

Notas de rodapé: 
1) Geringonça – Qualquer coisa ou engenhoca. No sentido do texto, se refere a escada. 
2) Frade – O mesmo que padre. 
3) Destrepa – Variante de descer, voltar à posição normal de onde iniciara a subida. 
4) Mercadora – Qualquer comerciante. 
5) Asceta – Aquele que vive uma vida religiosa de maneira austera.
6) Cenobita – Outra maneira de expressar a palavra padre, ou frei.
7) Prelado – Variante de padre, pároco ou religioso. 

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, no Espírito Santo. 6-1-2022 

Anteriores: 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não aceitamos/não publicamos comentários anônimos.

Se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-