terça-feira, 10 de janeiro de 2023

[Aparecido rasga o verbo] Alça de silicone

Aparecido Raimundo de Souza

A MARTA
assim que chega da rua, joga a bolsa em cima da mesa de centro, arranca os sapatos e se despe da jeans desbotada. Fica só de blusa e calcinha. Senta sem pudores, as pernas abertas no braço do sofá e olha muito séria para a amiga acomodada num canto da peça. Acende um cigarro eletrônico, tira duas longas tragadas e então abre o jogo. Fala:
— Bina, a Pepeca me disse que está em cólica para espalhar no Facebook dela o que viu ontem na casa do Robertinho...

Bina:
— Verdade, Marta?
Marta:
— Embora ela tenha dito, por alto, que o que presenciou, não gere lá uma certeza cem por cento confiável...

Bina (Mexendo em seus longos cabelos em cascata):
— Como assim?
Marta:
— Alega que o ocorrido, foi “pescado” no ar, ou seja, sem querer... tipo mero acaso. Apesar dos pesares, segundo ela, depois que a notícia do que ela realmente viu, ou acha que viu se espalhar está quase certa de que o Pierrot não encontrará a sua querida e adocicada Colombina.
Bina (De repente, mostrando mais interesse no assunto):
— Você tem ideia do que seja lá o que for que a Pepeca viu, ou como você colocou aí, “pescou”, a coisa toda dará uma guinada na história?

Marta: 
— Sinceramente? Sim! 
Bina: 
— E por quê? 
Marta: 
— Tenho para mim que a Pepeca flagrou algo insofismável. 
Bina: 
— Algo o quê? 
Marta: 
— Insofismável. 

Bina: 
— Traduza... 
Marta (rindo): 
— Esta palavra sinaliza tudo aquilo que não pode ser enganado. Eu acho que ela descobriu que o Robertinho está traindo a sua Sweet Child... (1). 
Bina (Pula do lugar onde está em descanso): 
— Será?
Marta:
— Não tenho certeza. Mas, pelo que ela me contou, presumi que mais hoje ou amanhã, a dança do Robertinho com a querida ninfeta que ele tanto diz amar, será interrompida.
Bina (Boquiaberta):
— Meu Deus! 

Marta: 
— Com certeza, se os fatos se confirmarem Pepeca botará os esperneios das puladas do sujeitinho às claras. 
Bina: 
— Você acha? 
Marta: 
— Como conheço bem a Pepeca... quando me falou, parecia um carrossel em alta velocidade. 
Bina: 
— De fato, nossa amiga quando braba, não é fácil. 
Marta: 
— Eu que o diga. Lembra uma trepada épica (2). 

Bina: 
— Pelo visto, se a coisa se concretizar, o Robertinho logo deverá estar se esbaldando em outra caverna. A Pepeca, como sempre, parece trazer em seu instinto uma volúpia depravada, notadamente quando quer ferrar alguém... 
Marta (se levanta, caminha até a varanda e joga o cigarro eletrônico prédio abaixo): 
— Concordo plenamente. Ela adora balançar a árvore dos pecados escondidos... das pessoas a seu redor. Por isso, quando me encontro com a sua figura, me coloco no “modo recolhido”. Perco, no ato, a minha alegria vertiginosa e procuro ficar bem distante das suas unhas afiadas... 
Bina (Se queda num sorriso elegante): 
— É o melhor que se pode fazer. No caso em questão, o “ficar de fora” e em silêncio, favorece a todas nós, “medrosas”. 

Marta: 
— Verdade... 
Bina (Como se fizesse previsões): 
— Pelo andar da carruagem, pressinto futuras jogadas de merdas no ventilador. Acredito que um novo colorido se desenhará com a vinda à baila desse furo-bomba que se avizinha... 

Marta (franze o senho): 
— Pelas brumas do seu rosto fechado, tenho quase certeza de que está certa e não só isso: você me parece deveras apreensiva. 
Bina (Desconversando): 
— Eu? 
Marta: 
— Sim, você. 
Bina: 
— Engano seu. Estou em meu estado normal. 
Marta: 
— Segundo Santo Agostinho, “o mentiroso é um assassino de si mesmo”. 

Bina (Desvia o rumo da prosa e procura esconder uma certa preocupação): 
— Nada a ver. Me ponho assim, porque não gosto de ficar dura. Aliás, dura e seca. Estou me sentindo como uma rapadura prestes a ser devorada. 
Marta (Solta numa gargalhada sonora): 
— Rapadura, Bina? Não tinha uma iguaria melhor ou mais confortável para se parecer? 
Bina (Disfarçando): 
— Não pensei nisso... 

Marta (Descamba para outro assunto): 
— Vamos à padaria? 
Bina: 
— Fazer o quê? 
Marta: 
— Sei lá. Lanchar. Ver se achamos alguma coisa interessante... 
Bina (Aproveita a deixa da amiga): 
— E você, no fundo de seu coração, quer isso mesmo? 
Marta: 
— Na moral, Bina? De verdade? 

Bina: 
— Sim, seja sincera... 
Marta (Se acende, por inteira. Pensa que chegou o momento de falar, sem mais subterfúgios, das suas emoções. Sopesa cada palavra e de modo simplório se declara à amiga. Talvez não houvesse uma nova oportunidade igual): 
— Estou com fome, muita, fome. Quanto a achar alguma coisa interessante, o meu melhor prato, até agora, é você. Desde o dia em que passamos a morar aqui neste apê que alugamos em comum acordo. A propósito: ainda sobrou um pouquinho daquele leite condensado? 

Bina (Finge um espanto ensaiado e pesca, no ar, a afoiteza animada da sua colega que lhe ajuda nas despesas do apê alugado): 
— Adivinha... 
Marta (Aproveita o gancho da amiga e joga, no ar, uma espécie de desejo carnal aprisionado): 
— Melhor a gente ir à padaria e trazer, além do leite condensado, uns petiscos e, de roldão, um bom vinho geladinho. E então? 
Bina (Abraça a amiga num trejeito leve e cheio de segundas intenções): 
— Demorou!... só espero que você não fique diabética... açúcar em demasia... 

Notas de rodapé: 
1) Sweet Child – Pequena criança. 
2) Épica – Coisa soberba ou colossal. 

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, no Espírito Santo. 10-1-2023 

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