domingo, 15 de janeiro de 2023

[As danações de Carina] Abrigo transitório

Carina Bratt 

Ele: - Que saudade! 
Ela: - Não mais que a minha. 
(Eupídio Mas Não Mendigo)

DE PASSAGEM por São Paulo, achei, na Vinte e Cinco de Março, numa banquinha improvisada, um livro de pouco mais de sessenta folhas, intitulado ‘Só espie, não leia, nem cheire’, de um cidadão que assinava as suas tiradas como Eupídio Mas Não Mendigo.


A criatura, um jovem de uns vinte e poucos anos, me garantiu que não era ele o autor. Ajudava o amigo ‘escritor’ preso a uma cadeira de rodas, em face de ter o mesmo se acidentado de moto na Avenida Treze de Maio, na Bela Vista, onde trabalhava como entregador de uma pizzaria. 

Morador de Pirituba, o cidadão tinha mulher e duas filhas menores. ‘Além de cego de um ouvido, no lugar da cabeça tinha um diabinho chato’ que segundo ele, ‘soprava coisas desconexas nascidas do mais profundo de seu âmago’’. 

Resolvi ficar com um exemplar, lendo algumas frases e tentando mostrar a ele que o suposto criador do trabalho era inteligente e criativo, alegre e de bem com a vida. O vendedor sorriu brejeiro, despistou uma lágrima solitária e me garantiu que transmitiria o recado ao espirituoso Eupídio.

Nas ‘Danações’ de hoje, resolvi espalhar e dividir com minhas leitoras da ‘Cão Que Fuma’, alguns ‘pensamentos’ que achei engraçado e criativo. De braços dados com a solidariedade, procuro fazer a minha parte, ajudando e mantendo viva aquela ideia de ‘fazer o bem’.

Sempre, ajudando a quem quer que seja, sem olhar ou me importar com o seu perfil de vida. Aquele rapaz por algum momento (sei lá) não teve a sorte benfazeja de alcançar os objetivos almejados. Se verdade ou não o que me falou, não importa. Eu me senti realizada. E Papai do céu me ajuda grandemente vida à fora.

1) DE REPENTE, o ventilador jogou para bem longe todas as dores que rondavam meu corpo.

2) A Cadeira de Balanço brigou com o Balanço. Com raiva, o Balanço simplesmente parou de balançar.

3) O espelho refletiu nitidamente a minha imagem. Foi então que percebi: estava nu.

4) Ontem fui à casa de minha tia Eloisa. Em lá chegando, sentamos à mesa da cozinha para tomarmos o chá das cinco. O relógio da cozinha mostrava que passava um quarto das seis.

5) Ao ser acionado, o gatilho da arma falhou e o tiro não foi disparado. No minuto seguinte o atirador experiente descobriu que o cano havia agredido a culatra.

6) Minha cueca azul saiu da gaveta do armário e se jogou no tapete, toda amarrotada. Ela flagrou o cabide aos beijos com Eva, a faxineira que nunca trabalhou aqui em casa.

7) O vizinho do prédio onde trabalho como zelador, ocupante do 501, é o senhor Mar (um idoso até legal). Ele brigou feio com o chato do seu Telo, o morador do 302. Telo teria entrado no elevador social com os pés sujos de areia.

8) Tio Sá se engraçou com meu Pato. Conclusão: saí para a rua descalço.

9) O vaso de planta de mamãe não gosta do perfume que ela usa. Prefere cheirar merda.

10) As lâmpadas do meu quarto não estavam queimadas. A burrice foi minha, que não consegui visualizar onde o eletricista havia colocado o interruptor.

11) O papel higiênico aqui de casa fica pê da vida, quando, no momento de ser usado, lembro a ele que até aquele instante as suas frescuras viviam metidas no rolo.

12) Um peso em forma de gato segura a minha porta, para que não bata. Ontem a fechadura me chamou num canto e me segredou que os pelos do bichano atrapalham quando ela quer dar uma voltinha na chave.

13) O motorista do elevador não precisa de carteira para operar a geringonça. Ele só carece saber ir sem esquecer os pontos certos onde deixar os passageiros e depois lembrar o longo caminho da volta.

14) A camisa estava tão velha, mas tão velha e surrada, que só saia de casa usando bengala.

15) O sol todos os dias aparece no céu da minha vida e me dá um bom dia sorridente. Quando ele não vem, sinto saudades dos seus raios tocando, de leve, meus cabelos.

16) O túnel que corta o morro aqui perto do meu barraco, parece um bicho de outro planeta. Tem uma boca grande e cheia de dentes que lembram luzinhas em movimento. Ele suavemente engole os carros e os ônibus, sem, contudo, mastigá-los ou feri-los. Com carinho, minutos depois, vomita, deixando os são e salvos, lá do outro lado.

17) Deus existe. Ele toca meus cabelos, sopra em meus ouvidos palavras carinhosas, protege a minha casa, e, à noite, se faz firme e forte me presenteando com um monte de estrelas reluzentes, me fazendo acreditar que o dia seguinte será melhor e mais prazeroso que o de hoje.

18) Cada minuto da nossa vida, vale uma esperança ainda não realizada. Basta acreditar e o milagre da vitória um dia baterá à nossa porta. Ainda que a entrada principal da casa esteja fechada.

19) A Felicidade não chega na mesma hora para todos. Quem determina o momento certo é aquele quem tem nas mãos o relógio do tempo.

20) Victor era tão tímido, que ao ser parado pelas pessoas, porta de casa, ou meio da rua ficava mais envergonhado que o Corcunda de Notre Dame.

Título e Texto: Carina Bratt, do sítio Shangri-La. 15-1-2023

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