terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Estrangulamento da liberdade

O DropFOX segue a linha do Sleeping Giants, tentando minar a sobrevivência de quem discorda dele

Dagomir Marquezi


Já ouviu falar do “DropFOX”? Pode ser traduzido por algo como “Derrube a Fox”. “A Fox News é ruim para os negócios”, diz o manifesto do movimento. “Apoiar financeiramente a propaganda aprovada pelo Kremlin da Fox News, desinformação médica mortal, fanatismo, ódio e extremismo antiaborto certamente prejudicará a reputação de qualquer marca ou acionista.”

Segundo a revista Forbes, a Fox News terminou 2022 liderando com folga o segmento de canais de notícias no EUA, com 2,33 milhões de espectadores. Em segundo lugar vem a MSNBC, com 1,2 milhão, e em terceiro lugar a CNN, com 730 mil. Ou seja, tem mais espectadores do que suas duas rivais de esquerda somadas. Neste ano passado, a Fox News teve uma queda de 1% na audiência. A MSNBC caiu 21%. E a CNN levou um tombo de 33%. Ou seja, foi abandonada por um terço de seus espectadores.

Mas o DropFOX já julgou e decidiu que esses 2,33 milhões estão errados. A Fox News deve ser extinta. Segundo a ONG, “a Fox News desistiu da farsa de que sempre foi uma agência de notícias em primeiro lugar. Em vez disso, a Fox designou Tucker Carlson, um fanático xenófobo, que é obcecado por teorias da conspiração sobre o coronavírus e papagueia pontos de discussão nacionalistas brancos, como o rosto da rede”. Carlson talvez tenha sido o único jornalista de TV dos EUA a tentar ver a situação política brasileira de um outro ponto de vista. 

Segundo o manifesto do DropFOX, “a rede divulgou desinformação sobre o coronavírus pelo menos 13.551 vezes ao longo da pandemia em 2020”. O que é “desinformação”? Eles não informaram. E até a previsão do tempo da Fox News está sob suspeita, segundo a ONG: “Mais cobertura meteorológica não é uma coisa boa quando a cobertura meteorológica existente está atolada em negação climática”. Esporte? “A cobertura esportiva não é uma coisa boa quando está repleta de ataques racistas a jogadores que protestam contra a brutalidade policial.”

“Sangue nas mãos”

Julgamento final do DropFOX: “Cada vez mais, temos visto grandes corporações e marcas declararem publicamente que não podem simplesmente ficar de braços cruzados e não fazer ou dizer nada enquanto extremistas políticos atacam nossas instituições democráticas, minam nossa resposta de saúde pública à covid-19 e às crises climáticas, espalham crenças misóginas e atiçam a violência racial, anti-LGBTQ e xenófoba. A propaganda da Fox News é o principal motor por trás de todas essas depravações”.

Mas o DropFOX já julgou e decidiu que esses 2,33 milhões estão errados. A Fox News deve ser extinta. Segundo a ONG, “a Fox News desistiu da farsa de que sempre foi uma agência de notícias em primeiro lugar

O manifesto é assinado por 44 ONGs — todas esquerdistas —, como a Avaaz, a Fundação da Rede Global do Black Lives Matter, o Center for Media and Democracy, o CHANGE (Centro para a Saúde e Igualdade de Gênero), o Free Press, o “Poder Latinx”. E, como não podia deixar de ser, a ONG de censores Sleeping Giants, que os brasileiros já conhecem pelo estrago que causou à nossa liberdade de expressão. Em seguida, o manifesto lista 46 anunciantes da Fox News e seus respectivos endereços de e-mail, Twitter e Facebook. O objetivo é fazer com que cidadãos comuns mandem mensagens a esses anunciantes pedindo para que não veiculem mais publicidade na emissora na Fox News. Ela precisa morrer.

Outra ONG, a Media Matters, que não paga impostos por supostamente se dedicar à educação, elegeu a Fox News como a “Desinformadora do Ano” de 2020. Disse que a empresa tinha “o sangue de tantos norte-americanos em suas mãos” por minimizar a pandemia de covid. “É difícil imaginar o que as estrelas do horário nobre Tucker Carlson e Laura Ingraham poderiam ter feito de diferente se estivessem deliberadamente tentando matar o maior número possível de norte-americanos”, acusou o Media Matters. 

Em fevereiro do ano passado, dois deputados do Partido Democrata, Anna Eshoo e Jerry McNerny, pediram para que companhias de distribuição de TV a cabo tirassem a Fox News, além de outras duas empresas consideradas “de direita” (One America e Newsmax), dos sistemas por servirem de “berços de desinformação e focos de teoria da conspiração”. A carta foi enviada para distribuidores como Google, AT@T, Amazon, Apple, Hulu e outras. (“O ataque dos deputados democratas à liberdade de expressão e aos direitos básicos da Primeira Emenda deve causar arrepios na espinha de todos os norte-americanos”, declarou a Newsmax.)

Surge uma nova doença: a Foxitis

Nicholas Kristof, colunista do New York Times, sugeriu: “Enquanto os Estados Unidos debatem se devem responsabilizar o ex-presidente Donald Trump por incitar a insurreição, o que dizer de seu coconspirador Fox News? Não podemos acusar a Fox ou levar (os âncoras) Carlson ou Sean Hannity a julgamento no Senado, mas há medidas que podemos tomar — imperfeitas, inadequadas, que se apoiam em ladeiras escorregadias — para criar responsabilidade não apenas para Trump, mas também para seus companheiros de viagem da Fox, OANN, Newsmax e assim por diante”. Não foi o único jornalista a querer criminalizar o direito de opinião.

Dean Obeidallah, do site MSNBC, escreveu que apenas “cerca de 3 milhões de norte-americanos assistem à Fox News diariamente, mas os estimados 65 milhões de lares conectados a cabo do país são forçados a financiar a Fox News, permitindo que a Fox obtenha uma receita estimada de US $ 1,8 bilhão por ano em taxas de transmissão. É hora de isso acabar. Devemos exigir que as operadoras de cabo nos concedam liberdade da Fox News. É verdade que outros meios de comunicação — incluindo MSNBC, CNN e outros — recebem uma taxa para ser transmitidas pelas empresas de TV a cabo, mas essas taxas são muito mais baixas, já que a Fox News atrai o maior público de notícias a cabo”. Deve, segundo Obeidallah, ser punida pelo sucesso que faz.

No jornal britânico The Guardian, a colunista Arwa Mahdawi trata a questão como uma doença: “Por décadas, uma doença debilitante se espalhou pela América. Os fatores de risco incluem ter mais de 65 anos, ser republicano e branco. Os sintomas incluem murmúrios desequilibrados, pensamentos delirantes e um desejo irresistível de invadir o Capitólio. A doença é chamada de ‘Foxitis’, e um advogado chamado Joseph Hurley, que representa o suposto rebelde do Capitólio dos EUA Anthony Antonio, quer que acreditemos que seu cliente está sofrendo com isso”. Segundo Mahdawi, “a Fox fez uma lavagem cerebral em Antonio, para acreditar que Trump queria que ele marchasse sobre Washington como parte de um movimento patriótico. Agora Antonio está enfrentando cinco acusações por seu papel no motim de janeiro (de 2021)”.

O direito a existir

A questão aqui não é a Fox News em si. Ela pode ser o pior canal de notícias do mundo. Você pode discordar de tudo o que dizem seus âncoras e repórteres. Pode se negar a assistir ao canal. Mas, como escreveu a escritora inglesa Evelyn Beatrice Hall em sua biografia de Voltaire, “eu discordo do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo”. Essa é a razão da liberdade e a base da verdadeira democracia. O direito de escolher entre diferentes opções.

Sociedades sem direito ao contraditório ficam estagnadas. A grande imprensa norte-americana hoje é território quase exclusivo da esquerda — New York TimesWashington PostLos Angeles Times, CNN, MSNBC, revistas TimeNew YorkerNewsweek e Bloomberg Businessweek, todos eles seguem uma linha política muito definida, ligada ao Partido Democrata nos EUA. (Veja a reportagem O Consórcio (Internacional) de Imprensa, na edição anterior de Oeste.)

“Por décadas, uma doença debilitante se espalhou pela América. Os fatores de risco incluem ter mais de 65 anos, ser republicano e branco. Os sintomas incluem murmúrios desequilibrados, pensamentos delirantes e um desejo irresistível de invadir o Capitólio. A doença é chamada de ‘Foxitis’ e um advogado chamado Joseph Hurley, que representa o suposto rebelde do Capitólio dos EUA Anthony Antonio, quer que acreditemos que seu cliente está sofrendo com isso”

Você pode concordar ou discordar do que escreve um Washington Post ou do que sai na CNN. Assim como no Brasil você pode assistir todos os dias ao Jornal Nacional e considerar que tudo o que eles veiculam é a mais pura verdade. Ou pode nunca mais assistir à rede Globo na vida. Mas ela continuará existindo na grade da sua operadora de cabo, e nas transmissões de TV aberta.

Existiu a ilusão de que a Globo estaria numa crise tão profunda que estaria para fechar as portas de um momento para outro. Ou que a renovação da sua concessão seria revogada. Essa torcida revela um pensamento tão totalitário quanto o do DropFOX. Renovar a concessão das redes Globo, Bandeirantes e Record foi um dos últimos atos do ex-presidente Jair Bolsonaro. O artigo 5° da Constituição brasileira garante que “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”. Simples assim.

O que está em jogo, nos EUA, no Brasil, e na parte livre do mundo, é o direito básico a se conhecer o outro lado dos fatos. Você pode discordar radicalmente de uma ideia, mas tem o direito de saber o que ela propõe. Para, assim, chegar à sua conclusão. Por mais que se possa discordar da militância muitas vezes ridiculamente explícita de um New York Times, ninguém está pedindo a nenhuma empresa que pare de patrocinar o jornal. Não existe um DropCNN.

@dagomirmarquezi

Título e Texto: Dagomir Marquezi, Revista Oeste, nº 147, 13-1-2023

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