domingo, 5 de agosto de 2018

A inferioridade moral do Bloco

Alberto Gonçalves

O Bloco sempre foi um movimento de inspiração totalitária, empenhado em aproveitar as vantagens civilizacionais do Ocidente para transformar em votos as migalhas do velho ressentimento antiocidental.


Inúmeros cidadãos, alguns estimáveis, decidiram que as aventuras de um moço do Bloco pelo sector da especulação imobiliária arrasaram a “superioridade moral” da seita. Impõe-se uma pergunta: qual superioridade moral? O Bloco sempre fingiu ser democrata enquanto venerava ditaduras particularmente atrozes. O Bloco sempre fingiu apreciar a tolerância enquanto montava uma rede de vigilância e censura sem grandes precedentes. O Bloco sempre fingiu defender as minorias enquanto apoiava os maiores opressores das ditas. O Bloco sempre manipulou vítimas para inventar culpados. O Bloco sempre fingiu acarinhar os pobrezinhos enquanto abominava os respectivos costumes e escolhas. O Bloco sempre fingiu “progressismo” e “modernidade” enquanto lutava em prol da barbárie. O Bloco sempre fingiu desprezar privilégios enquanto acumulava na direção colecionadores dos mesmos. O Bloco sempre fingiu combater o “sistema” enquanto ajudava a consolidar a aberração oficiosa que Portugal é hoje.

O Bloco, em suma, sempre fingiu não ser o que é: um movimento de inspiração totalitária, empenhado em aproveitar as vantagens civilizacionais do Ocidente para transformar em votos as migalhas do velho ressentimento anti-ocidental. E sempre fingiu muito mal. Nem sequer se pode falar em hipocrisia na medida em que esta exige uma capacidade de dissimulação que o Bloco nunca soube ou precisou ter. Aquilo é pasto de fanáticos, que partilham de facto as convicções do dr. Louçã, ou, se conseguirem distingui-los, de idiotas diagnosticados, prontos a acreditar nas mais extraordinárias patranhas.

Mas mais extraordinária, depois de anos e anos de demências sem escrutínio, foi a comoção gerada pela pequenina habilidade do tal sr. Robles, talvez legal, decerto pouco ética e na essência igualzinha aos negócios do dr. Costa, que ninguém belisca. Não arranjaram melhor exemplo das abjecções da seita? É como se o Canibal de Milwaukee inspirasse reprovação colectiva por ser apanhado num restaurante vegetariano: “Estão a ver o sonso, a dar-lhe no tofu com o frigorífico cheiinho de fígados? Eu bem dizia que ele não era boa peça…”. Após uma carreira a exibirem impunemente a sua verdadeira natureza, os canibais, perdão, os leninistas do Bloco viram-se surpreendidos em flagrante em acto de intimidade com o lucro fácil. Apesar de tresandar a compadrio, será das coisas menos reprováveis que qualquer deles cometeu na vida.

Semelhante evidência não impediu um escândalo com protagonistas inéditos. Deleitado com a contradição, meio mundo desatou a citar sarcasticamente o “faz o que eu digo, não faças o que eu faço”, sem perceber que o pecado original dos inquisidores do Bloco está justamente no que dizem – mal por mal, os horrores que fazem, ou gostariam de fazer, são um bocadinho limitados por circunstâncias geográficas, políticas e sociais que para já lhes vão escapando. Na última semana, repito porque convém repetir, pessoas sérias decretaram o colapso da “superioridade moral” do Bloco como se o Bloco possuísse alguma, e as pessoas sérias conhecessem espécimes moralmente inferiores. No fundo, isto revela pouco acerca do Bloco, e muito acerca de uma sociedade infantil, ainda convencida da candura intrínseca do comunismo e perpetuamente desconfiada da liberdade.

Nota de rodapé
Dado o calor, com temperaturas nunca vistas desde a última vez em que as viram, cumpre-me emprestar este espaço para fins de serviço público e reprodução das valiosas recomendações da Proteção (que, apesar de tudo, não conseguiu proteger o “c” do Acordo Ortográfico) Civil, sem as quais a populaça andaria à nora. Infelizmente, a PC não trata todos os portugueses de igual forma em situação de emergência. A uns, em meras 12 horas envia “sms” amigas com o número de um vidraceiro automóvel, o que dá imenso jeito caso a emergência consista no pára-brisas quebrado. Aos outros, o desprezo. Sobretudo para estes, eis um resumo dos conselhos a seguir.

Em primeiro lugar, vista roupas leves: por mais que lhe apeteça envergar em agosto a samarra adquirida em Estremoz ou o camisolão de lã que a tia lhe ofereceu no Natal de 2005, resista à tentação. Em segundo lugar, beba muitos líquidos: é sabido que o Verão instiga greves de sede, mas não pratique nenhuma que exceda os cinco dias, por causa da desidratação e assim. Em terceiro lugar, não se ponha a atiçar incêndios a menos que queira atrair o prof. Marcelo e governantes sortidos à sua região: guarde o garrafão com gasolina e o Zippo para Dezembro e faça então a festa. Em quarto lugar, não se exponha ao sol entre as 10 da manhã e as 7 da tarde: frequente a praia no Outono e de preferência à noite. Em quinto lugar, não ingira comidas pesadas: espere umas décadas até que a gastronomia caseira invente comidas leves e, entretanto, satisfaça a gula com uma colher de sementes de chia. Em sexto lugar, não execute tarefas cansativas: exiba este texto ao seu patrão e converta-o às virtudes das folgas extraordinárias. Em sétimo lugar, profira impropérios regulares contra o sr. Trump: afinal, o homem destruiu o clima. Por último, e mais importante, o telefone do vidraceiro é o 9…
Título e Texto: Alberto Gonçalves, Observador, 4-8-2018

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