segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Democracia ou revolução? O Centro decide

Jose Miguel Roque Martins

Todos sabemos que a democracia, apesar de todas os seus méritos é um instrumento débil que acomoda muitas insuficiências: prevenir revoluções sempre foi apontado como uma das suas maiores virtudes. Os episódios, com vítimas mortais, no assalto ao Capitólio, um acontecimento inédito na bem estruturada democracia americana e, agora, num mais moderado vandalismo à sede do menos eficiente poder democrático brasileiro, vêm destapar um segredo mal guardado: as regras democráticas clássicas já não são suficientes para garantir uma sociedade funcional.

A premissa de que a democracia permitia seguir o desígnio da maioria, enquanto conciliava e salvaguardava os interesses das minorias, parece estar a falhar rotundamente, um pouco por toda a parte, embora com diferentes circunstâncias, aspirações e desígnios. Pelo contrário, observa-se uma redução da tradicional vasta maioria moderada, mesmo que com ideias diferentes, capaz de acomodar minimamente os interesses e valores das franjas da sociedade.

Nos EUA e no Brasil, o centro praticamente implodiu, sendo sexy o radicalismo de uns que provoca o radicalismo dos outros. Questões sociais fraturantes juntam-se a minorias esquecidas no turbilhão das mudanças da matriz econômica provocadas pela globalização e a um conjunto de causas, menos dignas, mais capazes de aglutinar o ódio do que a resolver problemas substantivos, provocando a intolerância, em que cada lado não parece minimamente capaz de perceber o ponto de vista dos outros e procurar um compromisso. Todos querem exatamente o que querem, logo. O resultado, um indisfarçável cheiro a enxofre, faz prometer revolução ao invés de evolução.

Nos EUA e no Brasil, desapareceu o centro, e passamos a ter apenas dois lados, mesmo que muitos escolham apenas o menor dos males. Na Europa ainda é um pouco diferente, mas a prazo, provavelmente lá chegaremos. No velho continente, os profundamente insatisfeitos, podem dividir-se em três famílias:

Os comunistas (leninistas, como o PCP, ou trotskistas, como o BE) que querem mais Estado, menos liberdades e menos democracia, que usam os costumes como ferramenta de subversão;

Os liberais, menos Estado e mais liberdades individuais, que nunca foram fortemente populares numa Europa povoada com as ideias de um Estado forte e protetor;

Os partidos populistas sem ideologia consistente (como o Chega em Portugal) aglutinam conservadores respeitáveis (ofendidos nos costumes), Nacionalistas Estatistas (ofendidos com a falta de ordem, corrupção e globalização).

Sempre houve comunistas, liberais, conservadores e outros insatisfeitos. O que hoje é diferente é o desempenho do centro moderado que sempre esteve no poder na Europa Ocidental.

Os centros (esquerda e direita), perderam a capacidade de garantir a prosperidade, ao namorarem com a economia de mercado ao mesmo tempo que a atraiçoam ferozmente, aparentemente uma condição de sucesso eleitoral, ao mesmo tempo que parece terem perdido as cautelas no tempo das necessárias alterações sociais e os cuidados a ter com a salvaguarda das liberdades individuais, na sua busca por uma estatização e normalização, cada vez mais ofensiva para quem, mesmo não sendo liberal, encontrava conforto na sua relativa liberdade.

A maior responsabilidade não é, por isso, dos diferentes, daqueles, como eu, que não se reveem no centro moderado (em Portugal o PS e o PSD é da (ainda) maioria de centro moderada, que detém o poder, mas que tem que perceber que ao tornar-se despótica (mesmo que apenas aparentemente), vai enfrentar a revolução, que já esteve mais longe.

À falta de uma evolução liberal, não posso honestamente dizer que ficaria infeliz com uma revolução liberal, mas, como é uma impossibilidade nas próximas décadas e não me parece que o país ficasse feliz, já agora gostava que o Centrão acordasse, começasse a funcionar, nos desse pão e liberdade, em vez de casos e casinhos e prevenisse uma revolução que só pode ser muito desagradável para quase todos.

Título e Texto: Jose Miguel Roque Martins, Corta-fitas, 9-1-2023

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