quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Lulu Santos gay, Bolsonaro na roda e conservadorismo pragmático

Leonardo Glass

Na semana passada o cantor e compositor Lulu Santos, 65 anos, declarou-se gay. Ele já foi casado com a jornalista Scarlet Moon e também com o tri-atleta Bruno Azevedo, ou seja, não é novidade a sua orientação sexual. A diferença é que, dessa vez, Lulu assumiu publicamente o relacionamento homoafetivo.

Longe de sofrer retaliações, quebras de contrato, ou qualquer outro ataque da vulga “direita raivosa”, os únicos dois comentários que li a respeito foram duas piadas do Joselito Müller: a primeira dizendo que a revelação de Lulu Santos chocou um total de ZERO pessoas; a segunda, que muitos se surpreenderam COM A IDADE de Lulu Santos. De resto, ninguém surpreendido, incomodado ou boicotando a obra do artista.

Ontem, Bolsonaro foi o entrevistado no programa Roda-Viva. Não assisti (preferi ver o Comedy Central Roast com Bruce Willis). Mas li os comentários e percebi muita gente indignada com os jornalistas tendenciosos que tentaram colocar Bolsonaro em uma saia justa (opa!), apelando até para dados de Wikipédia como fonte fidedigna.

Ao mesmo tempo, porém, comemoravam o fato dele ter se saído bem nas respostas e até enquadrando alguns jornalistas, como quando devolveu a pergunta a uma delas “cuestionando-a” se a Polícia deveria responder aos tiros dos bandidos com flores.

O que os dois fatos têm a ver um com o outro? A princípio nada, mas dá para tirar valiosas lições de ambos.

Primeiro, que nenhum conservador sério é fiscal de toba alheio. Aliás, quem gosta de fiscalizar o toba de terceiros é justamente a turma da lacrolândia que tem até termometro de homossexualismo. Mas, voltando ao assunto, nenhum conservador pragmático dá a mínima se o Lulu Santos é gay, bi, hétero, ou se transa com árvores. Ademais, embora não seja um gay fresco (duplo sentido intencional) ele nunca usou a sua opção sexual como bandeira artística, querendo vincular o seu trabalho à sua preferência sexual.

É, por exemplo, o contrário da ojeriza que Pabllo Vittar causa, ao querer ser reconhecido como artista apenas por ser trans, chegando ao ponto de mentir ao dizer que “muitos gays tiveram que morrer para que ele pudesse estar ali no palco do Rock in Rio” [A] (Freddie Mercury em 1985, Rob Halford em 2001 e Elton John em 2015 mandaram lembranças).

Segundo, embora tenham se indignado contra a má-fé dos entrevistadores, nenhum conservador sério se vitimizou ou vitimizou Bolsonaro, ao contrário do que a turma da lacrolândia fez quando da entrevista da Manuela D’Ávila, acusando os repórteres de manterrupting, mansplanning, etc. Nenhum conservador (e certamente nenhum esquerdista) ficou contando quantas vezes Bolsonaro foi interrompido pelos jornalistas presentes.

Em que pese a tendenciosidade dos jornalistas, achei ótimo Bolsonaro ter sido pressionado ao extremo. Aliás, espero que TODOS os candidatos sejam entrevistados apenas por jornalistas que discordem frontalmente de suas ideias (vai ser difícil achar jornalistas de direita, mas divago...). Espero que todos os presidenciáveis que passarem por esse programa (e por outros) sejam excruciantemente arguidos e inexoravelmente sabatinados, até que não sobre nenhum traço de marqueteiros e assim possamos conhecer o candidato de verdade. Todo o resto é relações públicas, como diria George Orwell William Randolph Hearst.

Isso nos leva ao cerne dessa pequena reflexão: o que querem, afinal, os conservadores? Por que a mídia tradicional não aceita que um grupo de pessoas normais, que não quer nada grandioso, e que gostaria apenas de viver a sua vida sem ser importunado, tenha cada vez mais voz? Por que os conservadores, assim como os elefantes, incomodam tanta gente?

O conservador é, antes de tudo, um pragmático, ou seja, tem relações profundas com as coisas e os problemas do mundo real, e não com elucubrações do tipo, como ter banheiros para atender todos os 63 gêneros disponíveis (embora a sigla oficial tenha “apenas” 14 letras), ou então se canudos de plástico são o maior problema ambiental do mundo. Ao contrário da esquerda lacradora e politicamente correta, conservadores não se guiam por boas intenções, mas por resultados práticos. Daí, por exemplo, rechaçar o estatuto do desarmamento que, longe de resolver o problema da violência, apenas o agravou.

Por viverem no mundo real, e não em um eterno programa da Fátima Bernardes, conservadores entendem que os boletos precisam ser pagos no fim do mês, que não existe almoço grátis, e que a cultura ocidental, por mais falhas que tenha, ainda é melhor do que as teocracias islâmicas ou a “democracia” comunista. Mais do que rechaçar ideias com outras ideias, conservadores vivem na prática aplicação de ideias. E por isso, rejeitam muitas delas, porque sabem que o mundo real é uma vadia sem coração e não liga para as boas intenções. Aliás, de boas intenções a Venezuela está cheia!

Em suma, conservadores querem ser respeitados, e não chamados de qualquer termo pejorativo por suas escolhas (reaça tá liberado!). Eles querem que cada um cuide da sua vida; querem ter sua família, seus filhos, seu trabalho e poder viver em segurança e tranquilidade, sem se preocupar em ser assaltado ou morto. Nada muito diferente do que querem Lulu Santos e Jair Bolsonaro, respectivamente.

[A] Ele disse isso em uma entrevista ao vivo para o canal Multishow, logo após sua apresentação no RiR deste ano.

Título e Texto: Leonardo Glass, via Pugina.Org, 2-8-2018

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