sábado, 10 de outubro de 2020

O STF dos sonhos não existe

A escolha de Kassio Nunes parece equivocada. Mas teoria da conspiração sobre pacto com o diabo é para quem quer ficar sonhando com vestais

Guilherme Fiuza 

A escolha do novo ministro do STF gerou um turbilhão. Foi ou não foi uma traição? Bolsonaro desrespeitou milhões de brasileiros que esperam dele o combate às velhas raposas da política? O que significa, na verdade, a indicação do desembargador Kassio Nunes Marques à vaga de Celso de Mello na Suprema Corte? 

A primeira demarcação necessária é a seguinte: discutir se a escolha foi boa ou ruim é uma coisa; discutir se Bolsonaro fez pacto com o diabo é outra. 

O Brasil sonhou com Sergio Moro passando pelo Ministério da Justiça e indo sanear o STF. Seria um choque de eficácia no combate à corrupção no país, com a inoculação do gene da Lava Jato no ninho de casuísmos que virou a Corte máxima do país. Mas a vida não é filme, como diria o poeta.

Veja como as aparências enganam: deu tudo errado. Sergio Moro, justamente o depositário da esperança nacional quanto à prevalência do espírito público — ou seja, aquele em quem mais se podia confiar —, roeu a corda. Em plena pandemia, montou um suposto dossiê contra o presidente da República, que continha até mensagem de WhatsApp para afilhada de casamento.

Para um juiz espartano e pragmático, que não dava ponto sem nó e só falava o necessário, aquele show de quase-possíveis-meias-evidências jogadas no ventilador para sustentar uma tese pegou mal. Essa novela se arrasta há meses sem comprovação da denúncia, mas logo de cara a sociedade já tinha estranhado. O evento estava espetacular demais para o estilo de Moro. 

A resistência de boa aparência é um vexame e só pensa em conspirar

O país estava errado ao sonhar com o herói da Lava Jato para iniciar a depuração do STF? Não. Tinha todas as razões para isso. Depois do escorregão político de Moro, fazendo dupla com Mandetta para atacar o presidente de dentro do governo, continuaria segura a aposta nesse homem para sanear o Supremo? Duvidoso. Quem chegaria ao STF? O juiz virtuoso ou o político desajeitado?

Assim é a vida. Kassio Nunes é o anticlímax. Quando o país esperava um magistrado apolíneo sem passagem pelos corredores da política fisiológica, surge um nome que não espanta os passantes desses corredores. Qual é a do Bolsonaro? 

A resposta é simples: a do Bolsonaro é a do Bolsonaro. O homem rude que veio sacudir o mofo do elitismo afetado. Entre gols e caneladas. Por que ele não faz só os gols e evita as caneladas? 

Porque aí não seria ele. Seria outro. Onde está esse outro que constituiria um ministério técnico — com a agenda reformista de Paulo Guedes à frente — sem loteamento partidário, ao mesmo tempo com liga popular, mas sem caneladas? Não apareceu esse outro. Então vai ser com esse mesmo que está aí, que a democracia colocou aí — com o pacote completo. Com soluções e trombadas. 

Ah, mas não dá pra dar um banho de loja, pelo menos? Não, não dá. Até porque um dos problemas é justamente o excesso de grifes no mercado. Como sabemos, a resistência de boa aparência é um vexame e só pensa em conspirar. Então chegou a hora do churrasco — pé no chão, fumaça e barulho. Quando os sofisticados voltarem a se comportar direito, quem sabe, os modos melhoram no salão. 

No caso do ministro da Infraestrutura, o impulso do presidente virou um choque de gestão

Você queria um Miguel Reale Jr. no STF? Claro que sim. Um dos autores do pedido de impeachment da presidenta delinquenta. Mas o que anda fazendo o professor Reale? Política. Oposição mecânica ao fascismo imaginário. Vamos ser sinceros: para conchavo tucano no Supremo já temos Gilmar Mendes. 

Então que tal um Ives Gandra? Excelente. Mas aí ele evoca o tal poder moderador das Forças Armadas e a turba mais assanhada começa a sonhar com a dissolução do STF. Que tal? Quando a ideia é ruim ou gera ruído, os danos podem ser piores justamente quando a coisa provém de um cardeal. Então vamos aproveitar para dar uma relativizada também no cardinalato, que não está com essa bola toda. 

Falar em bola, quando Vavá substituiu Pelé na Seleção teve que dar uma bronca em Didi, o cérebro do time. “Já te falei pra não me dar bola limpa. Manda dividida que eu resolvo.” Bolsonaro é um centroavante estilo Vavá — que substituiu Pelé e voltou ao Brasil com a taça. 

A escolha de Kassio Nunes para o STF parece equivocada. Talvez seja. Foi tão impetuosa quanto a escolha para ministro da Infraestrutura de Tarcísio Gomes de Freitas — terceira opção que virou primeira após uma única conversa. Nesse caso, o impulso do presidente virou um choque de gestão num dos maiores focos de corrupção da história do país, emblema de um governo com mais de ano e meio de gestão limpa. É o pacote Bolsonaro. 

Críticas são fundamentais. Teoria da conspiração sobre pacto com o diabo é para quem quer ficar sonhando com vestais. 

Título e Texto: Guilherme Fiuza, revista Oeste, edição nº 29, 9-10-2020, 17h38

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