terça-feira, 9 de novembro de 2021

[Aparecido rasga o verbo] Nem cabeça e sem dar pé

Aparecido Raimundo de Souza 

BARNABÉ FOI preso em flagrante com a mangueira  que liga o gás da botija às seis bocas do fogão desconectado dentro da cozinha da casa de dona Sandroca, uma vizinha contígua à sua residência. Um morador de frente, bisbilhoteiro que só ele, ao perceber o movimento esquisito, acionou a polícia. Quando um dos fardados saltou da viatura e chegou para dar voz de prisão, repetindo aquela surrada frase “Não se mova, ponha as mãos na cabeça”, Barnabé estava pelado. Com o imprevisto da intromissão do representante da lei, uma força nervosa caiu sobre seus costados, com uma fúria surpreendente, e, pior, o bilau em ponto de bala, que havia enfiado na extremidade oposta do cano de PVC, literalmente empacou. Se fez necessário chamar também o corpo de bombeiros, para o transporte. Levados para a delegacia, mangueira, botija e botijador, careceu às presas, passar antes pela enfermaria do pronto socorro, para desplugar a arma do crime de onde Barnabé a havia atochado. A coisa foi tão esquisita e anormal, que nem os homens do fogo deram solução. Depois do vexame e das perguntas chatas do escrivão, colocaram o trio em celas separadas. Segundo explicações passadas à dona Sandroca, proprietária dos objetos, “para não haver novos contatos”. A mangueira e o botijão iriam ser encaminhados para exame de corpo de delito, para comprovar (ou não), um possível e duplo caso de tentativa de estupro, tendo em vista que o botijão e a mangueira, eram menores de idade. Tem moral? Sim! Quando urubu acorda sem sorte, logo às primeiras horas da manhã, é sinal que uma série de desgraças acontecerá em sequência, nelas incluídas o fato típico da ave voando logo abaixo, cagar feio na de cima. Afinal, depois de melecado, que diferença faz um peido para quem acabou borrado? Só o Barnabé sabe a resposta para esta inquirição.

                                                 ***

Brastemp não fede nem cheira. Nem cheira, nem fede. Não  defeca, nem sai da moita. Não bebe, nem deixa outro entornar. Não come e nem permite que os talheres sejam movimentados. Fica em cima do muro, olhando para o vazio do terreno, espionando quem passa e sondando os sons das casas vizinhas.

— Entre cascudo e traíra, prefiro robalo...

É um tremendo cara de pau o Brastemp! Não dá ponto sem nó. Sabe como tirar o seu da reta e deixar o buraco do furisco de algum mané na seringa. Chora de barriga cheia, dá linha à pipa, quando sente que a coisa vai ficar preta. Comunga aquele velho axioma que ensina: “é melhor passar por bobo sendo sabido, do que se gabar um tremendo sabichão, dando uma de besta quadrada”.

— Estou mais para covarde vivo que herói cheio de medalhas no peito, morto e falecido dos pés a cabeça.

                                                 ***

Tarafeu de Aquino vive espalhando, aos quatro cantos, que “caiu na rede é peixe”. Principalmente se a coisa, mero acaso, ou descuido, descambar para a sua.  Tarafeu entende que a situação faz o ladrão, assim como depois da batalha, aparecem os valentes e, depois de um bando de mortos, “haverá, consequentemente, mais de um cadáver sem vida para ser enterrado em covas de cemitérios periféricos”.

— Hoje eu pego a Solange...

A Solange é uma mulher onde o galo não canta e a galinha comanda. Todavia, o Galo aqui citado, é um sujeito conhecido pela alcunha de “Engole Cobra Com Chocalho e Tudo”. Policial militar da pesada, desses  tidos como “linha dura”, e, como tal, temido e odiado pela galera da comunidade. Dizem que, além de brabo, é matador profissional. Despachou, pelo menos, uns trinta para as “terras dos eternos dormidos”. Via contrária, como fêmea bonita é feita estrada boa, macia e aconchegante, porém, perigosa, o Tarafeu resolveu, apesar dos contras, arriscar as suas fichas. Para inicio de conversa, cismou de dar uma de canibal, e, na pele desse simpático personagem, comer, em pedacinhos bem apimentados, a mulher do “Engole Cobra Com Chocalho e Tudo”, ainda que precisasse, para tê-la na cama, transformar um simples limão em uma boa e saborosa laranjada. Laranjada?! A porca torceu o rabo. Tarafeu de Aquino caiu morto com um balaço no meio da cabeça, pelo “Engole Cobra Com Chocalho e Tudo”, que chegou em casa da Solange (justo naquela hora do bem-bom) disfarçado de liquidificador.

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Brim e Trim brigam como cachorro e gato. Às vezes, nessas contendas, dá cachorro, noutras, gato. Raramente, os três. Quando isso acontece, ambos se apartam. Cada um vai para um lado, com cara de pedinte-noiado que peidou dentro da igreja no meio dos fieis, na hora da santa missa. Trim come sardinhas em lata ao molho de tomates e arrota caviar. Brim prefere moscas fritas em banha de porco e constrói castelos no ar. Trim acha que a necessidade faz o sapo pular. Não só o sapo, mas a rã, o cágado, o cangurú, o leão e o macaco. Pular, pois, para Trim, não é prioridade só do sapo. O homem também usa do mesmo artifício. Dependendo da situação, não pula, vai mais longe, salta. Quanto a esse quesito, Brim não se manifestou. Preferiu ficar na dele...  

                                                 ***  

Amaro pegou, não o bonde andando, mas o trem. Caiu feio, se esfolou todo. Quase morreu. Ficou uma semana na salmoura comendo papinha de hospital de segunda.

— Deixa estar, jacaré! A lagoa vai secar...

Não secou. Depois do susto, Amaro compreendeu que a água não tem cabelo, nem barba, nem bigode, nem cavanhaque. Sequer um topetezinho assim, que seja, para se agarrar na hora em que a bunda bater n’água fria e o cu não saber nadar dando braçadas entremeado às pregas. Amaro descobriu mais: sentiu, na pele, que a água, efetivamente, é careca. De pai e mãe. Chegou a conclusão, igualmente, de que a pressa é inimiga da perfeição. Que a ansiedade exagerada nada mais é que sofrer por antecipação. Diferente de foder. Quem fode por antecipação, acaba gozando nos pé da cama da cunhada. Pior, se, ao invés dos pés, na hora do supremo gozo, encontrar, de contrapeso, o “calcanhar de Aquiles...”.

                                                 ***  

Durval tinha mania de fazer cortesia para se dar bem. Deu na telha de cantar a Arlinda, sua vizinha boazuda de fechar o comércio. A moça morava sozinha, não tinha namorado. Investiu pesado. Mandou flores, comprou presentes. Se derreteu em vestidos e peças íntimas, entre elas uma calcinha minúscula e um shortinho que, vestido na beldade, deixava a gostosona mais apetitosa, crescendo, faceira, aos olhos da rapaziada feito rabo de cavalo em pangaré de pinguço. Ele, o mísero cantador, não sabia, contudo, que ela queria ver o capeta, mas não a sua pessoa, nem pintada de ouro. Para tentar um ponto final na situação, Arlinda chamou o Tiseu, um amigo distante, cabra parrudo, verdadeiro Hércules com músculos à moda Schwarzenegger embutido. Só não era mais grosso, o fulano, por absoluta falta de espaço. Quem tem um cara desses, no seu “retaguardo”, não precisa de segurança. No domingo, Durval, como sempre, se achegou. Arlinda, maquiavélica, mandou que ele entrasse. 

Dentro da casa, metido num desses velhos armários Luiz XV, um elemento estranho à história, esperava a hora certa para cair matando. Arlinda virou, mexeu, foi lá dentro, voltou vestida com uma camisa amarrada na barriga mostrando o umbiguinho, e, na parte das coisas proibidas, a tal calcinha de puta que Durval lhe dera, que, a bem da verdade, mostrava tudo e só escondia dos esbugalhos da criatura, o que não carecia ficar destampado. Sumiu de novo, desta vez para as bandas da cozinha. Serviu café, pão, bolo, biscoito, os cambaus. Durval era meio barro, meio tijolo, pintor de rodapés, salva-vida de aquário... comeu, comeu, bebeu, bebeu, repetiu, se empanturrou... quando, altas horas, pensou em partir para cima da moça e usufruir dos seus pecados expostos, frenteou bigode a bigode com o baita do grandalhão. Foi como se a montanha do seu sobressalto tivesse parido um rato desconjuntado. Disse o cara: “Mano, meu santo não bate com o seu. Eu sou o tinhoso em pessoa. Vou puxar seu tapete e, de quebra, ajeitar seu topete. Você, ultimamente, não tem penteado, como manda o figurino, seus cabelos crespos e sedosos...”.

Durval, em resposta, pontilhou severo, decidido, demonstrando uma coragem puramente medrosa: “Crespos e sedosos? Escuta aqui, seu filho de uma égua. Se tu és homem e macho, cai pra cima. Vou te mostrar com quantos paus se faz uma canoaaaaaaaaaa...”.

De repente, num repente repentinamente repentino e repetentemente envolvido numa dança grostesca de passos não ensaiados, as chibatadas de Teseu lhe fizeram recuar. Durval se contorceu sobre si mesmo, reboleante, vencido, destroçado. Numa sequência bizarra, beijou paredes, se abraçou aos fragmentos de cadeiras despedaçadas. Sua cabeça deu com os chifres numa garrafa de vinho vazia, e, seu nariz, cheirou o gosto amargo do chão. No minuto seguinte, o depauperado não viu mais nada. Tudo virou um labirinto de imagens difusas e... escuridão. 

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de São Paulo, Capital. 9-11-2021

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