domingo, 12 de agosto de 2018

Transe intransitivo

Carina Bratt

Era tão magra e raquítica que muitas vezes se via confundida com um desses palitos de restaurantes de periferia. Às costas do dia a dia, passava longe da arrogância, embora se achasse melhor que todo mundo. Não se amava, se mordia a ponto de sangrar os cotovelos dos pés de tanta inveja que sentia, principalmente de uma vizinha sua, que parecia ter sido irmã siamesa de Pabllo Vittar em encarnações passadas.


Frequentemente abordava longos papos consigo mesma. Extremamente inteligente, conversava, ora com as paredes, ora com seus medos e receios, embora, na maioria das vezes, não entendesse exatamente nada do que as cadeiras da cozinha lhe dissessem. Católica até dizer chega, não faltava às missas de domingo. Chegava sempre atrasada, quando todos se propunham a ir embora e o padre, para fugir de suas tagarelices, se escondia ligeiro, na cueca do sacristão.

Apesar disso tinha Deus Pai como um Ser Divinizado. Comungava com os botões de suas blusas e vestidos, que “Fé demais não cheirava bem”, principalmente depois que assistira por cento e duas vezes ao longa “Leap of Faith”, de Richard Pearce. Nutria, por conta desse filme, o convencimento positivista de que o negócio mais lucrativo do mundo seria um só. Comprar um de nossos parlamentares (fosse essa bosta senador, deputado ou ministro do Supremo) pelo que ele não valeria ainda que trocado por merda na feira de Acari e vendê-lo para Donald Trump pelo que ele pensaria custar em dólares estando fora do país.

Sua única sogra jamais fora considerada parente mesmo quando estivera casada com o filho da pobrezinha por dois meses. Para ela, essa infâmia se constituía numa pedra de encosto, principalmente na de seu entre aspas, “marido provisório”, enquanto lhe servira de esposo. Propagava em encontros com amigas e amigos que feliz, de fato, fora o bíblico Adão, que não tivera uma jararaca em sua existência, apenas uma cobrinha insossa e sem graça com a qual palitou por diversas vezes os dentes depois de jantar fartamente a sua pequena e sonhadora Evinha.

Desgraçadamente viciada em carros antigos adorava bater uns nos outros, só para ver o tamanho do estrago. Nunca tirou carteira de habilitação. Sempre que vencia a sua CNH, renovava o porte de arma. Entendia que uma Beretta na cintura se constituía na melhor amiga e companheira de uma motorista, assim como uma puta de beira de estrada se tornava indispensável na boleia de um caminhoneiro solitário e longe da família. 

Mão de vaca e sovina em excesso, abria a guarda somente para cumprimentar os bois que encontrava por onde passava. Carregava a certeza de que alguém parado numa esquina (fosse tarde da noite ou não) poderia desconfiar, sem medo de errar, tratar-se de um ladrão em potencial. Todavia, se a criatura corresse, ao se ver aproximar um estranho, seria um veadinho qualquer com dinheiro oriundo de propinas de algum figurão filiado ao PT.

Mulher jovem de espírito decidido, sem freios ou papas na língua, possuía as curvas perfeitas. Não como as da estrada de Santos, no litoral paulista, tampouco as perigosas da Serra do Rio dos Rastros, em Santa Catarina. Pior, se assemelhava, sem dúvida alguma, as de Hana Roade, na famosa ilha de Maui no Havaí.  Não andava, em hipóteses nenhuma, na linha, não por assombro ou cagaço de vir a ser atropelada por um trem, contudo, o de ser ferida pela agulha pontiaguda de alguma Maria Bordadeira capenga das vistas.

Para ela, a humanidade se dividia indubitavelmente em duas partes distintas: os que não tinham pavor de encarar o mundo de frente e os que se acovardavam e viravam marionetes nas mãos dos afortunados e soberanos. Apostolava um exemplo simples, para corroborar o seu fio de conduta: “Assim como temos os brasileiros que votam em ladrões e mafiosos há os de sangue nas ventas, que partem para a briga e expulsam os demônios que querem se abancar infinitamente no que eles pensam ser o PODER”.

Quando descobriu ao completar vinte e cinco anos um câncer nos ossos e meses depois veio a óbito, todos os vizinhos e amigos lhe foram dar o derradeiro adeus numa cerimoniazinha simples. A mãe, coitada, antes de o caixão baixar à sepultura, quis dizer algumas palavras.  Por certo, cá entre nós, o mínimo que poderia fazer, em face daquela fatalidade repentina. Entre lágrimas a lhe escorrerem pelo rosto enrugado, amparada por consanguíneos vindos às pressas, ergueu os olhos para o céu e mandou bala:
- Senhor, receba minha filha em sua Santa Misericórdia, com a mesma alegria e prazer com que te despacho agora.
Título e Texto: Carina Bratt, secretária e assessora de imprensa do jornalista e escritor Aparecido Raimundo de Souza. De São Paulo, Capital. 12-8-2018

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