terça-feira, 17 de novembro de 2020

[Diário de uma caminhada] Presidenciais: o dever da busca coletiva da Verdade. O debate que o Observador recusou. Fica o desafio à comunicação social


Gabriel Mithá Ribeiro
 

Nada de humano se sustenta sem a busca permanente da Verdade. Esta é a semente da Justiça, da Democracia, da Estabilidade Social e Política, da Prosperidade Económica. Regimes ou ciclos históricos falhados são sempre os que escorraçaram o sentido da Verdade da vida quotidiana. 

O balanço da III República Portuguesa não deixa dúvidas. Os piores sintomas sobrepõem-se na elevada abstenção eleitoral, na incapacidade de suavizar o fosso entre ricos e pobres, na falência das mais variadas instituições, na corrupção endémica, no abismo da miséria do qual não conseguimos desviar o olhar, numa descrença coletiva que se agrava com os passar dos anos. 

Comparado com o inglês (1689) ou com o norte-americano (1775-1783), o regime democrático português (1974) está muitíssimo longe da velhice, porém padece de males degenerativos graves determinados na origem. É tempo de corrigi-los. 

Não há como não admitir que os pilares da III República Portuguesa foram instituídos, em 1974-1975, em fundações que escondem cadáveres, sangue, sofrimento, miséria de meio milhão de portugueses dissimulando as sequelas trágicas da destruição abrupta e violenta de um império colonial que, por meio milênio, tinha dado sentido à identidade nacional portuguesa. 

Só é legítimo destruir de forma trágica um império colonial em troca da Verdade, uma vez que a Verdade vale mais do que todos os impérios. O princípio nem sequer é questionável. Porém, aos portugueses nunca foi dada a possibilidade de fazerem a troca do Império pela Verdade. Se a colonização deslegitimou a II República (1926-1974), a descolonização tinha necessariamente de legitimar a III República (1974). Isso nunca aconteceu. 

Não existe passado colonial que justifique que milhares de portugueses que viviam em África acabassem, em 1974-1975 e mesmo depois, presos sem culpa formada, queimados vivos, barbaramente assassinados, crianças e mulheres violadas, corpos de vítimas esquartejados, os sobreviventes expropriados das suas casas, bens e negócios e expulsos dos países onde viviam e alguns nasceram, por vezes em 24 horas com direito a míseros 20 quilogramas de bagagem, sujeitos à mais diversas humilhações. Pessoas e famílias simplesmente abandonadas a um destino que as destroçou. 

Esse martírio seria improvável se os ideólogos fundadores da III República, ainda hoje influentes, não o tivessem instigado. Não se pode jamais negar que, à época, estavam em causa minorias portuguesas brancas indefesas que foram vítimas de uma violência racial e étnica com laivos genocidas em sociedades esmagadoramente negras. 

Se os factos são graves, bem pior é o tratamento que lhes tem sido dado. De então para cá, o regime vigente sobrevive da fuga à verdade inconveniente, arrasta-se na omissão sádica do sofrimento de compatriotas ao longo de décadas, o que inclui a supressão desse martírio da memória social. É bastante sintomático que o mesmo não conste nos manuais escolares que instituem o sentido da cidadania em Portugal. Independentemente da legitimidade de diferentes posicionamentos sobre factos relevantes, não é tolerável manter a sociedade portuguesa ignorante sobre esses mesmos factos. 

O falhanço inevitável dos povos que fogem à Verdade

Como é que se pode falar hoje de xenofobia, racismo, discriminação, ódio às minorias em Portugal, e bem pior, como é que se pode acusar os portugueses comuns de tais práticas sem que antes se discuta – com verdade, frontalidade, em toda a sua dimensão e consequências – a violência homicida que se abateu sobre esses mesmos portugueses quando foram minorias em Moçambique ou em Angola nos tempos finais do império? 

Ao mesmo tempo que se têm agravado as pressões políticas para que os portugueses silenciem as memórias do seu próprio martírio enquanto povo na diáspora, sobre esses mesmos portugueses pesam crescentemente exigências para que se predisponham a novos martírios, agora no seu próprio território ancestral, como se a sua história concreta nunca tivesse existido. 

Se as pressões silenciadoras de traumas nunca exorcizados por parte do regime vigente já eram salientes na imposição de um multiculturalismo antiportuguês e antieuropeu – imposto através do ensino, da imprensa ou das artes e espetáculos –, a tendência agrava-se com a proteção institucionalizada, em Portugal e na Europa, à atual imigração ilegal, invasiva, abusiva, persistente. 

Parte significativa dessa imigração ilegal é oriunda de uma África cujos índices de violência social, criminalidade violenta e comum, anomia social e ódio ao Ocidente são hoje muitíssimo mais generalizados e graves do que eram em 1974-1975, quando aconteceu o que aconteceu. Foi isso que a esquerda mentalmente semeou em África (na Ásia e no Mundo Árabe) no último meio século, essa mesma esquerda que agora quer fronteiras territoriais permeáveis, ou mesmo abertas, amordaçando aqueles cuja sensibilidade recomenda segurança, responsabilidade, proteção da dignidade. O lastro que a história deixou só dá razão à valorização de sentimentos nacionalistas entre os portugueses e entre os demais povos europeus. 

Um olhar sobre os índices de explosão demográfica demonstra como os ocidentais são hoje uma minoria no contexto internacional e não podem escapar ao princípio da realidade. 

É ainda preciso incluir no que está em causa a dissimulação das pesadas responsabilidades morais do atual regime português nos milhões de mortos causados por guerras civis em Moçambique, Angola ou Guiné-Bissau que se sucederam à descolonização desastrosa, eufemisticamente rotulada de descolonização exemplar, com a consequente destruição social e econômica daqueles países por muitas e muitas gerações que se sucederão. 

Não é possível manter uma relação honesta com as minorias com essa origem sem lhes explicar o que é que o atual regime português fez, nos dias do fim do império, para que os seus países originários ficassem como estão. Não vale a pena insinuar que África e os africanos são mesmo assim, uma vez que ao abandonar precipitada e desordenadamente Angola e Moçambique, o atual regime português contagiou no mesmo sentido a Rodésia (Zimbabwe) e a África do Sul. Foi a III República Portuguesa que, na sua origem, precipitou o desmoronar da África Austral que até então era o suporte mais sólido da viabilidade do continente africano no seu conjunto. 

As consequências contagiosas causadas pelo que se passou em Angola e em Moçambique, em 1974-1975, são equivalentes a fazer desmoronar, e de forma abrupta e irresponsável, a funcionalidade de certos países-chave da Europa Ocidental de hoje e, depois, esperar consequências milagrosas para toda a Europa. Foram tais os estragos legados pela III República Portuguesa em África e, consequentemente, ao mundo para os próximos séculos que essa herança não pode simplesmente ser apagada da história. 

Claro que a África Austral da época necessitava de reformas sociais profundas, em especial de cariz racial, mas nem sequer Angola e Moçambique eram especialmente preocupantes. O que se fez foi como largar bombas atómicas sociais para resolver questões de direitos legais e cívicos. Esse é o grande legado à história universal do atual regime português. Simplesmente desastroso, irresponsável, vergonhoso. 

Quer do lado dos candidatos do regime às presidenciais – Marcelo Rebelo de Sousa, Ana Gomes, Marisa Matias ou João Ferreira e as forças políticas que os apoiam –, quer do lado do candidato que contesta a legitimidade do atual regime, André Ventura e quem o apoia, como eu, seria fundamental que, em conjunto, colocassem no âmago do debate eleitoral o tema da Verdade Histórica como fundamento de todas as Verdades: Verdade Social, Verdade Política, Verdade Econômica, Verdade Cultural, Verdade Identitária. Um regime fundado na falsidade histórica é um regime de mentira, é insustentável. 

Não admitir que tal debate se trave publicamente transforma esse regime numa força repressiva ilegítima, por muito que se escude em formalismos constitucionais e democráticos. 

Na matéria, quem defende a atual III República tem muitas explicações a dar e, sem elas ou sendo as mesmas rebatíveis, a defesa da IV República tem toda a legitimidade, desde que signifique um regime refundado na busca livre e permanente da verdade histórica, a mãe de todas as verdades coletivas. 

Não há outra forma de fazer de Portugal um país justo, livre, tranquilo, seguro, próspero. 

O Observador recusou apoiar o debate sobre este tema e outros relevantes para o futuro de Portugal. Apelo, por isso, a outros órgãos de comunicação social de referência a que se predisponham a incentivar a que a Verdade regresse ao âmago da vida coletiva em Portugal através do debate político franco, aberto, justo, honesto. Os portugueses têm de decidir em consciência o seu voto nas próximas eleições, a começar pelas presidenciais de janeiro de 2021. 

A imprensa tem especiais responsabilidades na busca coletiva da Verdade. Os portugueses merecem! 

Título e Texto: Gabriel Mithá Ribeiro, Vice-Presidente do CHEGA!, 17-11-2020 

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Um comentário:

  1. Zapeando pela tv ,paro na SIC internacional ,a tempo de me surpreender com entrevista do Sr. presidente do "chega" André Ventura, defendendo o apoio ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.
    No mínimo incoerente!

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