domingo, 7 de março de 2021

Rui Rio é parvo ou faz-se?

Rui Rio, sempre disponível para ajudar o Governo, não teve disponibilidade para formalizar o interesse do PSD no apoio da IL à candidatura de Carlos Moedas. É caso para perguntar: Rio é parvo ou faz-se?

Helena Matos

1Lê-se e não se acredita: «presidente da IL estava desde janeiro à espera de um contacto de Rui Rio para falar de Lisboa, mas o contacto nunca aconteceu.»

Foto: Paulo Novais/Agência Lusa

Note-se que no mesmo período em que Rui Rio não teve disponibilidade para contactar os liberais de modo a formalizar junto deles o interesse do PSD no apoio da IL à candidatura de Carlos Moedas, desbaratou disponibilidade no apoio às mais destravadas propostas. Por exemplo, a 8 de Janeiro vimo-lo a declarar-se “disponível para adiar eleições” presidenciais; em meados de Fevereiro andou em palpos de aranha porque viu o PS mostrar-se disponível para alterar a legislação sobre as candidaturas independentes que com toda a disponibilidade PS e PSD tinham alterado em 2020. E agora, no início de março, quando o PS foi confrontado com o chumbo por parte das autarquias à localização do novo aeroporto no Montijo, logo Rui Rio se veio mostrar disponível para “ajudar Governo a retirar poder de veto dos municípios aoaeroporto”. Não passa uma semana sem que Rui Rio se mostre disponível a ajudar o PS a ser menos ou mais qualquer coisa que só ele, Rio, vislumbra.

Estávamos já habituados a este modo único no mundo de fazer oposição por parte do líder do PSD, quando o lançamento da candidatura de Carlos Moedas veio mostrar que o caso Rui Rio pode ser bem pior. Depois de ter precipitado o anúncio da candidatura de Carlos Moedas em Lisboa, Rio logo a seguir lhe falhou no essencial, ou seja nas negociações com a IL. Com a candidatura há menos de uma semana no terreno, já é claro que ou Carlos Moedas se desembaraça de Rio ou se arrisca a que este se torne no maior problema da sua candidatura. (No meio de tanta petição por qualquer coisa e o seu contrário, creio que terá o maior cabimento fazer-se uma petição a pedir encarecidamente ao líder do PSD que visite a Venezuela. Talvez venha de lá esclarecido sobre as consequências da autodestruição da oposição, mas conhecendo-o é de temer que se convença precisamente do contrário.)

2Diz o PÚBLICO que o PCP anda há cem anos “Em busca de uma sociedade que nunca existiu”. Mente o PÚBLICO: essa sociedade existiu, existe e caracterizou-se invariavelmente por milhões de vítimas, fomes, genocídio, torturas, campos de concentração… Do Afeganistão ao Vietnam não houve praticamente uma letra do alfabeto que não identificasse um país onde foi implantado o comunismo. E que por isso mesmo e como tal foi elogiado pelo PCP. O mesmo partido que o PÚBLICO diz andar há cem anos “Em busca de uma sociedade que nunca existiu”.

Por que este rasurar da prática comunista? Por que este negar da evidência? Porque esta dissociação entre o ideal comunista e a realidade dos regimes comunistas é essencial ao proselitismo que tudo cerca, das universidades às redacções. Os comunistas não são nem nunca foram viajantes românticos em busca de uma sociedade perfeita. São gente que sabe o que quer e que não quis nem quer saber o que se fez em nome dos seus ideais.

3Foi bonito ver Catarina Martins e Jerónimo de Sousa saindo pressurosamente do seu torpor para virem defender o Governo via ataques a Cavaco Silva após o antigo PR ter declarado que A democracia em Portugal está amordaçada… É em momentos como estes que se vê como os “queridos comunistas” são hoje indispensáveis à governação socialista, mesmo quando esta lhes dispensa os votos. Afinal, enquanto garantem a paz social ao PS, os comunistas do PCP e do BE reservam os slogans e as fúrias para aqueles que põem em causa o poder do PS. Ou que, como é o caso de Cavaco Silva, mantêm uma reserva de autoridade moral que lhes permite dizer o que pensam. Enquanto ouve as declarações de Catarina Martins e Jerónimo de Sousa sobre Cavaco Silva, António Costa não deixará de concluir que a compra do silêncio desta gente foi o seu melhor investimento.

PSEntre anúncios, novas estratégias, desmentidos e reconfirmações perde-se o norte ao plano de vacinação e testagem à Covid 19. Fomos agora informados que Equipas móveis vão percorrer o país para testarem todas as escolas públicas.  Apenas as escolas públicas? Recordo que a 19 de janeiro foi anunciado que a testagem ia começar nas escolas secundárias públicas e privadas dos concelhos de risco extremamente elevado.  A 26 de Fevereiro os testes de rastreio foram alargados a todas as escolas do continente, independentemente do nível de ensino. Agora em março as escolas privadas desapareceram dos comunicados. Aguardam-se explicações.

Título e Texto: Helena Matos, Observador, 7-3-2021, 8h45

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