sábado, 17 de abril de 2021

A malignidade em estado puro

Maria Lucia Victor Barbosa

A morte é única certeza na qual não gostamos de pensar. Aparece de diversas maneiras, de repente ou estendida longamente por doença até o desfecho, que às vezes é sentido como alívio. No corpo ou na alma é sempre aniquilação. Entretanto, existe um tipo que desmonta a naturalidade do inevitável: a morte que podia ser evitada e aborta o que estava por vir, ceifando uma vida sem deixá-la desabrochar.

Uma dessas horrendas mortes veio agora à tona, causando profunda repugnância e mal-estar a quem tem um mínimo de sentimentos. Trata-se do bárbaro assassinato do menino Henry Borel, de apenas quatro anos, por um covarde, celerado, torturador e sádico de nome Jairo Souza Santos, vereador da capital fluminense que é chamado carinhosamente de Dr. Jairinho.

Doutor? Médico, na verdade um monstro? Ele infligiu torturas físicas e psicológicas a um inocente que não tinha como se defender. Em vão aquela criança linda pediu socorro. A mãe sabia e não o socorreu nem a avó nem a tia, irmã do bestial assassino, nem a psicóloga nem a pediatra.  Apenas a babá alertou sobre as barbaridades cometidas pelo vereador contra Henry.  Foi coagida pelo doutor a não dizer a verdade, mas no segundo depoimento teve a coragem de denunciar as atrocidades que, aliás, foram reconstituídas de suas conversas no celular com a mãe, Monique Medeiros da Costa e Silva.

As brutais agressões do doutor eram constantes, até que culminaram na última, quando o assassino se trancou no quarto com o menino e exerceu a malignidade em estado puro, matando o coitadinho a pancadas.

O assassinato daquele menino tão lindo se deu em 8 de março, sendo que a sessão de tortura começara na véspera.  Se nem um adulto resistiria a tamanha brutalidade, impossível o corpo frágil de uma criança aguentar. Foram múltiplos os sinais de trauma, ou seja, o tal Jairo teve prazer em arrebentar o corpo da criança até a morte.

Para piorar, a mãe sabia de tudo. Nem animais são assim, pois o instinto das fêmeas é o de proteger as crias.  E esta senhora, no dia seguinte ao enterro do filho foi a um salão de beleza a fim de se embonecar. Também se interessou por cursos de inglês e culinária. No dia da prisão caprichou no vestido no melhor estilo dondoca.

O casal alegou ter encontrado Henry no chão do quarto com olhos revirados, pés e mãos gelados e com dificuldade de respirar. Inventaram que a pequena vítima apenas tinha caído da cama sobre tapete e se machucado. A criança chegou morta ao hospital e o vereador deu telefonemas para contatos importantes, como ao governador do Rio e outras autoridades na tentativa de se safar do assassinato. Também tentou evitar que o menino fosse levado ao IML, o que não conseguiu graças ao pai de Henry.

O delegado tem conduzido exemplarmente o escabroso caso. O casal vai ficar 30 dias presos. E depois? Nos Estados Unidos seriam condenados à pena de morte ou a prisão perpétua sem condicional. Mas somos o país da impunidade, das leis frouxas ou não cumpridas, do dá-se-um-jeito. E isso é revoltante quando se trata do pior e mais covarde dos crimes: o infanticídio.

Mesmo porque, uma criança não consegue se defender nem ser ouvida em seus pedidos de socorro. Apesar de tudo, o vereador continua vereador e faz parte, o que é um escárnio, do Conselho de Ética da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Vamos ver o que acontece depois dos 30 dias. Notícias informam que o tal ser repugnante passeia tranquilo pela cadeia, certamente fazendo campanha para próximas eleições.

Agora começam a aparecer outras testemunhas, mulheres com as quais o vereador também viveu. E coisa asquerosa, o tarado também machucava os filhos delas. Ainda bem que esses inocentes sobreviveram.

Recorde-se ainda os Nardone.  Madrasta e pai de Isabella, jogaram a menina linda de cinco anos do sexto andar de um prédio. Foram presos, mas onde estão agora? Quem sabe, no conforto do lar e usufruindo de uma doce vida.

Houve igualmente há tempos um menino, cujo pai e a madrasta, depois de inúmeras torturas e maus-tratos, desacordaram a criança e o enterraram. Surgiram suspeitas de que o mártir ainda estava vivo.

Li, é isso em período recuado, que duas mulheres que moravam juntas mataram, depois de muitas torturas, um menino, filho de uma delas. O crime da criança era ser do sexo masculino, pois a dupla era de feministas fanáticas e exacerbadas.

Quantas crianças já foram estupradas, torturadas e mortas no Brasil? Segundo levantamento da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), em uma década o País teve 2 mil mortes de crianças até quatro anos e 80% das agressões se deram dentro de casa por pais e responsáveis.  Agora, sem aulas e ficando mais em casa deve estar havendo mais violência doméstica e infanticídios que não são denunciados.

Até quando vamos tolerar a malignidade em estado puro de assassinos que agridem e matam inocentes e ficam impunes? Como bem disse a presidente da SBP, Luciana Silva (O Estado de S. Paulo, 14 de abril de 2021): “O caso do menino Henry não pode ser ignorado e dever ser tratado com todo rigor que a lei exige.”

Sem dúvida, a barbárie cometida contra Henry é um alerta para que seja sempre denunciada com relação a outras crianças, inclusive, pela mídia. E o terrível sofrimento e a brutal morte de Henry não podem ficar impunes. Que se faça justiça. Com todo rigor da lei. Já é tempo do Brasil se tornar civilizado.

Título e Texto: Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga, mãe e avó. 17-4-2021 
mlucia@sercomtel.com.br

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