sexta-feira, 5 de maio de 2023

[Aparecido rasga o verbo] Trocando as bolas

Aparecido Raimundo de Souza 

SERPENTE RASTEJANTE sabia de tudo. Entendia das coisas desde a invenção do pneu ao desastre do Zepelim. Era considerado, na roda de amigos, como “o cobra” do pedaço. Aliás, com relação a isso, matava o pau e, seguidamente, exibia o que havia sobrado da infeliz. Poderia ser um ofídio qualquer, contudo, para ele não havia tempo ruim. Pau, portanto, no sentido aqui ventilado, como aquele cidadão “disposto para toda obra”, extremamente gentil e prestativo, Serpente Rastejante, apesar do apelido, não se fazia “um cascavel venenoso”, de má índole, ou extraviado para as bandas do gênio do medo do mal. Jogador inveterado, fazia uma fezinha toda semana, mas por essa via, a sua vidinha não obtinha o sucesso desejado. 

Sempre que dava o ar da graça no bar do Tinoco Bodegão (o Tinoco Bodegão lembrava a figura do Jô Soares no tempo em que ele imitava a Lilia Bife Quibe e Tim Maia sonhava em ser alguém além do desconhecido Sebastião Rodrigues). Por isso toda a população da cidade preferia se reunir nesse local, embora a comunidade contasse com outros pontos de finais de noite até mais bem falados.  Contudo, por algum motivo a rapaziada se aglomerava no Tinoco Bodegão enquanto os demais comerciantes ficavam praticamente a ver navios e moscas de péssimo humor. Serpente Rastejante sempre que “aparecia” gastava bons trocados pagando bebidas e rodadas de tira-gostos rodeado por pessoas que na maioria das vezes sequer sabiam de onde vinham ou para onde pretendiam seguir horas ou até dias depois. 

Meu encontro com Serpente foi meramente casual. Fazia um mês que eu não topava com ele, todavia, hoje, quando por volta das cinco da tarde adentrei portas à dentro, ao me acomodar numa peça contígua, dei com o prezado às barbas de um desconhecido no pedaço, três garrafas de cervejas e copos pela metade. Só o cumprimentei e preferi ficar afastado. Serpente Rastejante tinha o hábito de gritar, em razão disso, não demorou muito para que a revelação do nome do estrangeiro se propagasse à baila, de roldão:
— Ontem, companheiro Bugre — disse Serpente Rastejante (que a todos os amigos e conhecidos alcunhava de “Companheiro”) a certa altura —, ontem fui ver uma exposição do Leonardo Machão.

O tal Bugre ficou sério. O sorriso escapou das maças de seu rosto numa interrogação inesperadamente aterradora:
— Leonardo Machão?
— Sim companheiro.
— Nunca ouvi falar.
— Pelo amor de Deus, companheiro Bugre. Não acredito!
— Pode levar fé, companheiro Serpente. Não estou brincando. Quem é a figura?
— Figura? Que figura companheiro?
— O tal do Leonardo Machão que você mencionou.
— Ah, é um pintor. Foi ele que fez “uma porção de desenhos famosos”. É conhecido em todo planeta.
— E você foi ter com o sujeito onde?

— Na verdade, na Estação Luz em São Paulo. Uma vez lá, viajei na maionese até Anchiano. Estava voando sobre a doce e inesquecível Itália.
— Deixa de lero-lero e pare de viajar. Pois bem. Você “plainava” na maionese sobre a doce Itália. Quero saber mais a respeito desse seu amigo Leonardo Machão.
Serpente Rastejante fez pose de entendido:
— Leonardo Machão, meu nobre companheiro é um polímata. Além disso é também inventor, anatomista, escultor, poeta e músico...
— Agora quem voa sou eu. Não por essa tal cidade de Anchiano. Meu espírito vaga sobre nossos copos vazios...

A essa observação do tal Bugre, pediram nova rodada. Veio atender a Mira, conhecida como a “Cigana Encantada”, uma das treze gatinhas escolhidas a dedo pelo Tinoco Bodegão. Altas horas, o Bodegão se transformava num inferninho. Virava pousada de quengas em busca de sexo fácil em barganha de alguns trocadinhos para um PF com direito a suco ralo de saquinho dissolvido em água com açúcar. “Cigana Encantada”, a Top que encabeçava as demais “coleguinhas”, se vestiam com ousadas peças mínimas. Deixavam os pinguços à beira de se imaginarem numa horizontal barulhenta dando trabalho às pulgas que infestavam os colchões frangalhados dos quartinhos existentes na parte superior do sobrado.

A beldade Mira sem tirar nem pôr, se assemelhava à “Mona Lisa’. Foi pensando exatamente nela que Bugre observou, enquanto sorvia com vontade o copo refeito até a borda:
— Antes de ir embora, quero ver se dou sorte e pego essa “Mona Lisa”, companheiro Serpente ou juro que deixo de me chamar Bugre.
Serpente Rastejante deu um salto. A cadeira que acolhia seu traseiro volumoso, foi ao chão num estardalhaço que balançou o coração do que continuou sentado feito um desmiolado:
— Na mosca, companheiro Bugre. Na mosca. Escondendo o jogo para me pegar, né safado? Isso mesmo!
— Isso mesmo o quê?

— O Leonardo Machão fez o desenho dessa dondoca que você acabou de mencionar o nome.
— Que nome?
— Mona Lisa. O Leonardo fez a “Mona Lisa”.
— Ah, estou ligado. Você se refere ao Leonardo pintor?
— Sim, ele mesmo.
— Ele não fez a Mona Lisa.
— Fez sim.
— Companheiro Serpente, ele não fez, ele pintou.
— Que seja. Deu vida, soprou nas narinas dela cores exuberantes. O fato é que depois, ele partiu para a “Última Ceia”. Em seguida deu porradas num tal de “Homem Vitruviano”, deitou com a “Virgem dos Rochedos”, foi amante fervoroso de “Ginevra de Benci...”.

Antes de continuar, deu uma beliscada no copo de cerveja, fez nova pose e continuou:
—... Sem mais nem menos, Machão largou dessa moça por causa da “Dama com Armarinho”, mandou São João Batista para o céu ter uma conversinha de pé de ouvido com São Pedro, fez dueto com Roberto Carlos e “Madona Litta” naquela música Unforgettable e, por derradeiro, imortalizou a “Mona Lisa”.
— Calma, lá, companheiro Serpente. Concordo com tudo o que disse. Apenas gostaria de esclarecer que a tal dama não tinha nenhum armarinho. No lugar do armarinho, você deveria ter dito Arminho. “A Dama de Arminho”. E “Madona Litta” para seu governo, nunca se encontrou com Roberto Carlos. Concluindo, “Mona Lisa”, tem até uma canção famosa imortalizada pelo Nat King Cole... diz mais ou menos assim... “Mona Lisa, Mona Lisa, mão que alisa...”.

Serpente Rastejante se mordeu de raiva. Quase emborcou o copo da bebida sobre a toalha. Subiu nas tamancas:
— Que isso, companheiro Bugre. Não me fale uma besteira dessa envergadura. De onde você tirou essa “mão que alisa?”.
— Da canção que eu citei, companheiro Serpente:
— Posso até ter errado o nome, por lapso. “A Dama do Arminho” e trocado pela do “Armarinho”. Mas alto lá. Vamos devagar. Não é a “mão que alisa” que o tal Nat interpreta. Perceba, companheiro Bugre: o cara disse o seguinte, “Mona Lisa, Mona Lisa, men have mamed you”, ou em tradução livre, com todas as letras, “os homens nomearam você...”.

Com um leve sorriso de superioridade, encarou o amigo:
— Bugre, meu companheiro desmiolado, você me lembra uma folha de papel almaço.
— Como assim?
— Branca, vazia, sem sal e completamente “almaçada”.
Sem dar chance de defesa ao amigo, o companheiro Bugre pegou o gancho e espinafrou:
— Olha quem fala. E você me pareceu, melhor dito, ainda me parece, mais degradante e piegas com seu Leonardo Machão.
— O que você achou de degradante e piegas?
— O seu Leonardo Machão. Leonardo Machão, autor da “Mona Lisa” e de todos os “desenhos, como você colocou as pinturas dele”, nunca foi machão. O nome de batismo da fera, Leonardo da Vince.
— Me coloco agora em seu lugar, companheiro Bugre. Eu é que estou à deriva. Dá para desenhar ou está difícil?

— Companheiro Serpente, estou sinalizando que o Leonardo do qual falamos o tempo todo e você apreciou na Estação Luz, nunca se vestiu machão. Machão de verdade. Segundo seus historiadores, jamais chegou a dar vinte. Com muito custo, apenas para você se situar, já que me deu uma lição das obras dessa criatura, Leonardo da Vince, se prestou a ir para a cama e logrou tirar umazinha, umazinha só, e, ainda assim, bem insossa, sem sal, sem açúcar. Enfim, sem nenhum tipo de tempero. As más línguas seguiram adiante e afirmam categoricamente até hoje que Leonardo se mostrava meio “invertido” e deu uma sorte tremenda, não perdendo a fama nem as camas nas quais apregoam se deitou. Sem falar que...
—... Termine...
— Que o parafuso dele era aéreo.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Brasília Distrito Federal. 5-5-2023

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