sábado, 25 de fevereiro de 2023

[Versos de través] Liberdade

Era o grande brado do Poeta, identificado com as dores e os anseios do povo e da Pátria. Além de ser um magnífico poema do ponto de vista literário, "Liberté", de Paul Éluard, carrega consigo o peso da História. Escrito em 1942, com o título "Une Seule Pensée" (Um Único Pensamento).

Esse texto foi transportado clandestinamente da França, ocupada pelos nazistas, para a Inglaterra. Em 1943, traduzido para vários idiomas, o poema foi distribuído como um panfleto, lançado por aviões aliados nos céus da Europa conflagrada. 

O responsável por contrabandear essa preciosidade da França ocupada para a Inglaterra foi um brasileiro, o pintor pernambucano Cícero Dias (1907-2003). Em reconhecimento a essa proeza, Dias foi condecorado pelo governo francês com a Ordem Nacional do Mérito, em 1998.

Nos meus cadernos de escola 
Nas carteiras e nas árvores 
Nas areias e na neve 
Escrevo teu nome 

Em toda página lida 
Em toda página em branco 
Pedra, papel, sangue ou cinza 
Escrevo teu nome 

Em toda imagem doirada 
E nas armas dos guerreiros 
Ou nas coroas dos reis 
Escrevo teu nome 

Na floresta e no deserto 
Nos ninhos e nas giestas 
Nos ecos de minha infância 
Escrevo teu nome 

Nas maravilhas da noite 
No pão branco da manhã 
Nas estações em noivado 
Escrevo teu nome 

Em todo farrapo azul 
No tanque de água mofado 
No lago de lua viva 
Escrevo teu nome 

Nos campos e no horizonte 
Nas asas dos passarinhos 
E nos moinhos de sombra 
Escrevo teu nome 

Em todo sopro da aurora 
No mar e em cada navio 
Na montanha adormecida 
Escrevo teu nome 

Nas espumas e nas nuvens 
Nos suores da tormenta 
Na chuva densa e enfadonha 
Escrevo teu nome 

Nas formas resplandescentes 
Nos sinos de várias cores 
Em toda verdade física 
Escrevo teu nome 

Nos caminhos acordados 
E nas estradas vistosas 
Ou nas praças transbordantes 
Escrevo teu nome 

Na lâmpada que se acende 
Na lâmpada que se apaga 
Em minhas casas reunidas 
Escrevo teu nome 

Na fruta cortada ao meio 
Do meu espelho e meu quarto 
No leito concha vazia 
Escrevo teu nome 

No meu cão guloso e terno 
De orelhas que estão em guarda 
Nas suas patas sem jeito 
Escrevo teu nome 

Na minha porta de entrada 
Nos objetos familiares 
Nas ondas de fogo lento 
Escrevo teu nome 

Em toda carne cedida 
Na fronte de meus amigos 
Em cada mão que se estende 
Escrevo teu nome 

Na vidraça das surpresas 
E nos lábios sempre atentos 
Bem acima do silêncio 
Escrevo teu nome 

Nos refúgios destruídos 
Nos faróis desmoronados 
Nas paredes de meu tédio 
Escrevo teu nome 

Nas ausências sem desejo 
Na solidão toda nua 
Nesta marcha para a morte 
Escrevo teu nome

Na saúde que retorna
No perigo que passou
Nas esperanças sem eco
Escrevo teu nome

E ao poder de uma palavra
Recomeço minha vida
Nasci para conhecer-te
E chamar-te
Liberdade.


Paul Éluard, 1942 (França, 1895-1952) 

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