sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

O vexame da imprensa

Três jornalistas da mesma emissora noticiaram o impeachment de Pedro Castillo, ex-presidente socialista do Peru que tentou dar um golpe, de “conservador e um político alinhado com a direita”

Ana Paula Henkel


O famoso “Ministério da Verdade” ganha mais um capítulo nesta semana. O ministério encarregado de reescrever a história através de distorções e mentiras é a estratégia usada no famoso 1984, romance de George Orwell, para recriar os fatos para evitar maiores distúrbios sociais. No livro, mais atual do que nunca, a ficção criada por Orwell em 1949 chega a ser assustadoramente similar com a atualidade: “Todos os registros foram destruídos ou falsificados, todos os livros reescritos, todos os quadros foram repintados, todas as estátuas e os prédios de rua foram renomeados, todas as datas foram alteradas. E o processo continua dia a dia e minuto a minuto. A história parou. Nada existe a não ser um presente sem fim no qual o Partido tem sempre razão. Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado.”

Depois do “Fique em casa, SE PUDER” e “O senhor não deve nada à Justiça”, vexames protagonizados por dois jornalistas na sequência da operação lava-Lula, nesta semana tivemos outro vexame nas páginas da carcomida imprensa para tentar salvar a reputação de um companheiro do ex-presidiário favorito do TSE/STF. Três colegas da mesma emissora de Renata Vasconcellos e William Bonner noticiaram o impeachment de Pedro Castillo, ex-presidente socialista do Peru que tentou dar um golpe de Estado no país, de “conservador e um político alinhado com a direita”.

Sim, eu sei. Pode rir! Foi difícil para mim também conter a gargalhada.

Na transmissão da GloboNews com a “análise” dos comentaristas, o jornalistas Marcelo Lins — talvez um dos maiores ativistas da extrema esquerda na imprensa — descreve o ex-presidente peruano como um “conservador que se alinha à direita”. Julia Duailibi, apresentadora do painel, ao passar a bola para o correspondente do canal em Buenos Aires, Ariel Palacios, acrescenta que Castillo é parecido “com a direita brasileira”. Palacios concorda com a descrição e colabora com a operação lava-Castillo dizendo que o peruano é conhecido por ser “altamente reacionário” e “uma fotocópia do presidente Jair Bolsonaro”.

Não se contenha! Eu disse que é difícil não rir!

Pedro Castillo é marxista ferrenho e sindicalista de extrema esquerda. Durante sua campanha presidencial em 2021, ele propôs estatizações, uma nova Constituição, a regulação da imprensa e até a dissolução do Tribunal Constitucional do país. Desde que assumiu como presidente, em julho do ano passado, ele estabeleceu toque de recolher, determinou a entrega de armas pela população e tentou decretar que a Justiça, o Judiciário, o Ministério Público, o Conselho Nacional de Justiça e o Tribunal Constitucional fossem declarados em recuperação judicial — tudo isso com a tentativa da dissolução do Congresso.

Em novembro, após as eleições presidenciais no Brasil, Castillo disse que foi convidado diretamente pelo ex-presidiário Luiz Inácio Lula da Silva para comparecer à posse do petista. Segundo os companheiros, há um mês, os dois membros do Foro de São Paulo conversaram pelo telefone, e, na ocasião, Castillo parabenizou o petista pela vitória e pelo “propósito de fortalecer a democracia”. No Twitter, Castillo escreveu: “Como parte desta conversa, agradeço seu convite pessoal para participar de sua cerimônia de posse”.

Mas para Julia, Marcelo e Ariel, o membro e fiel escudeiro do marxista Foro de São Paulo ao lado de Lula é “conservador alinhado à direita”, “altamente reacionário” e “uma fotocópia do presidente Jair Bolsonaro”.

Não é só Barroso que pensa que somos manés. Eu tenho certeza absoluta que essa gente mentirosa da imprensa carcomida pensa a mesma coisa. “Eles são burrinhos, tadinhos… uns manés. O que a gente empurrar eles vão engolir”, eles devem comentar rindo de milhões de brasileiros. Ou é isso, ou essa gente simplesmente mente que nem sente. E eles sabem que nós sabemos que o vexame diário é hoje uma realidade inevitável. Assim como Alexandre de Moraes, eles atingiram um ponto de não retorno. Resta, então, dobrar a aposta nas distorções, nas mentiras e na enganação com ares de intelectualidade barata.

Quem não se lembra de outra colega de Renata, Bonner, Julia, Marcelo e Ariel, a apresentadora Maju Coutinho, que, depois de dizer uma das maiores mentiras da pandemia, a de que os especialistas eram unânimes em forçar o lockdown, proferiu com a maior naturalidade, mostrando uma insensibilidade inacreditável diante de tanto sofrimento da população, o famoso “O choro é livre”. Talvez hoje ela até acrescentaria “manés” — O choro é livre, manés! Enquanto os mais necessitados, os mais pobres e vulneráveis iam sendo afetados de maneira cruel a cada dia de trancamento forçado, com direito à truculência policial encampada por governadores tiranos, Dona Maju, Dona Renata, Seu William a turba da GloboNews continuavam trabalhando de estúdios com ar refrigerado ou em home offices enquanto postavam em suas redes sociais “Fique em casa”, hoje “Fique em casa, SE PUDER”. Fique em casa, se puder, mané.

A hipocrisia dessa gente beira algum distúrbio psicológico. Há páginas e mais páginas documentadas do que, de fato, aconteceu durante a pandemia e o que foi dito. Assim como há todas as exposições — de tuítes, acordos e afagos a documentos do próprio Foro de São Paulo — ligando Pedro Castillo a Lula, à extrema esquerda e ao projeto de poder lulocomunista para a América Latina.

Depois de lavarem o Lula e tentarem lavar Castillo, não esperem outra coisa por parte dessa gente malandra da imprensa a não ser a limpeza do caminho imundo que Alexandre de Moraes pavimentou para o Brasil

Existe um mito piedoso, consagrado pela Primeira Emenda nos EUA e protegido pela Constituição Brasileira, solenemente transmitido de geração em geração de jornalistas, de que a imprensa livre, como “quarto Poder”, situado fora dos corredores do poder oficial, é um baluarte contra o absolutismo, a tirania e a mentira e, portanto, o guardião indispensável de uma sociedade livre. Até um certo ponto, isso pode ser considerado verdade. O poder do Estado é limitado (deveria ser, pelo menos) em princípio pelo fato de que ele só pode coagir externamente por meio do poder policial e da força da lei. No entanto, hoje é claro que o que Estado não pode fazer, a mídia pode coagir mais sutilmente de dentro, determinando o que e como vemos e definimos o mundo no qual vivemos e agimos. Uma imprensa absoluta, que jamais pode ser questionada, ou sua turba de jacobinos logo aparece, preenche mais perfeitamente o totalitarismo do que um Estado absoluto, pois em um sistema perfeitamente totalitário — cujo domínio é de fato total — ninguém jamais reconheceria que está sendo coagido.

Talvez o problema não seja apenas o mau jornalismo, mas o bom jornalismo. Nossa noção de imprensa livre é moldada, claro, por nossa noção moderna de liberdade de que podemos resumir, mais ou menos de forma adequada, com a capacidade de agir sem restrições externas. Embora seja verdade que o Estado não deva restringir a imprensa em nenhum sentido óbvio, ele dificilmente precisa fazê-lo: a boa imprensa contemporânea não é livre para seguir o mesmo padrão de independência e liberdade que a má imprensa tem, como defendemos. Cabe a nós, animais racionais pensantes, decidir o que comer e o que consumir. 

Ordem de prisão a Pedro Castillo

Essa ausência de restrição é, na visão tradicional, uma compreensão bastante insignificante da liberdade. Um animal irracional age instintivamente em resposta a estímulos imediatos, não porque se possa dizer que ele entende por que deveria iniciar certa ação, como caçar, por exemplo. Os seres humanos, ao contrário, são livres não apenas porque podem responder a estímulos, mas porque podem compreender, agir e ordenar suas vidas de acordo com o que consideram verdadeiro e bom. E, como na maioria das vezes não queremos ser enganados, viver esse desejo requer a capacidade de distinguir o que é verdadeiramente bom do que apenas parece. A liberdade humana, em outras palavras, é mais uma questão de razão do que de pura vontade, o que significa que a liberdade humana finalmente depende da verdade. Os atuais projetos tirânicos pelo Brasil e pelo mundo que querem e cerceiam a liberdade de expressão e de imprensa não estão embasados no estímulo de estancar a mentira, mas de esconder a verdade. Sem verdade, sem liberdade.

Esse caminho, hoje firmado até por ministros da suprema corte no Brasil, o de assegurar a quebra da constitucionalidade sem corar, “mesmo que só até segunda-feira”, parece ser uma grande reação ao terror atual dos encastelados da política, do judiciário e da carcomida imprensa: quanto maior o alcance da razão de uma pessoa, quanto maior sua independência intelectual, mais ela compreende o verdadeiro significado de suas ações e, consequentemente, mais livre ela pode ser considerada, mesmo que a compreensão dessa verdade limite seu leque de possibilidades de ação naquele momento. Se é verdade que a inteligência é parte integrante da liberdade, segue-se também que uma imprensa cega, estúpida ou incompreensiva não pode ser realmente uma imprensa livre, e que uma sociedade cujos horizontes são determinados por tal imprensa — uma sociedade que não pode realmente pensar, apenas regurgitar o que lhe foi colocado na boca — não pode realmente ser uma sociedade livre.

Os problemas do atual jornalismo não são apenas as ações como mais um membro do famigerado “Ministério da Verdade”, hoje comandado por Alexandre de Moraes e seus asseclas na imprensa com suas distorções e manipulações. A supressão de fatos e notícias relevantes — que podem afetar os peões políticos do sistema — é um ato grave contra o Estado de Direito e as próprias instituições de um país.

Frédéric Bastiat, economista francês e escritor, que desenvolveu o conceito econômico de custo de oportunidade e introduziu a parábola da janela quebrada, certa vez escreveu: “Nenhuma sociedade pode existir a menos que as leis sejam respeitadas até certo ponto”. Direitos que vêm da natureza — o que os norte-americanos chamam de “God given rights” — e são aclamados pelo povo antes mesmo de serem codificados em lei possuem poder de permanência inerente. O respeito à prática da liberdade de expressão e às leis que a aplicam se reforçam mutuamente e fazem o certo, além de evitar que o governo as atropele. Na teoria…

Em seu livro de 1995, A Visão dos Ungidos, Thomas Sowell observou que um grupo de elite, sem ter sido nomeado por ninguém, declarou sua moralidade superior e seu papel crítico na correção dos erros da sociedade. Os ungidos de hoje continuam a ter a arrogância de acreditar que é seu papel, com sua visão e ideias superiores, resgatar as vítimas da “opressão” da sociedade, denunciar os “abusadores” (hoje antidemocráticos) impondo sua vontade coletiva sobre os outros. Como explica Sowell, os ungidos — uma classe livre composta de membros da mídia, acadêmicos e políticos progressistas — acreditam que é seu papel resgatar classes vitimizadas e desprivilegiadas, corrigir injustiças percebidas através do monopólio da moralidade e, hoje, reescrever a história para que nós, manés, não perturbemos no futuro com esse troço chato chamado verdade.

É preciso dar um BASTA em toda essa parafernália vergonhosa que compõe grande parte do Estado no Brasil hoje: partidos políticos que só pensam em sugar o dinheiro do pagador de impostos alinhados a uma corte aparelhada por nada mais do que peões políticos que, alimentada por outros peões políticos na imprensa, nutrem corruptos em todas essas esferas. Depois de lavarem o Lula e tentarem lavar Castillo, não esperem outra coisa por parte dessa gente malandra da imprensa a não ser a limpeza do caminho imundo que Alexandre de Moraes pavimentou para o Brasil. Diante de tanto descalabro, veremos também banho de loja em figuras como Renan Calheiros, que, com seu superpacote da democracia que não permite questionar políticos, colocará o país em um lamaçal de (mais) impunidade e censura.

“Força, Renan!”

Título e Texto: Ana Paula Henkel, Revista Oeste, nº 142, 9-12-2022

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