sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

O establishment ungido

Embaixadores e outros funcionários do Itamaraty agiram para boicotar e sabotar um governo eleito, mas como era contra a “extrema-direita”, então era “resistência”


Rodrigo Constantino

Democracia dá trabalho. Winston Churchill dizia que bastam cinco minutos de conversa com um eleitor médio para conhecer o pior aspecto de uma escolha popular. Por outro lado, o mesmo Churchill sabia que a democracia era o pior regime, exceto todos os demais. Ou seja, no processo de escolha popular para coisas públicas, haverá muita decisão medíocre, o processo de persuasão será lento, imperfeito e o risco do populismo jamais deve ser descartado.

Diante dessa realidade, não foram poucos os que sonharam com uma espécie de administração burocrática de iluminados, uma casta de tecnocratas que pudesse cuidar “cientificamente” das coisas do Estado, sem essa pressão do povo “ignorante”. Nasce aí a “democracia de gabinete”, o famoso “deep State”, um núcleo de ungidos que vai controlar cada detalhe de nossas vidas, sem o devido escrutínio do povo.

Quando se diz “deep State”, o que se tem em mente é um Estado dentro do Estado, um conluio de funcionários públicos que, sem terem sido eleitos, dão as cartas no jogo político por controlarem o aparato estatal. Vale notar que, como muitas coisas em política, a ideia original dessa burocracia poderosa era louvável.

O próprio Max Weber defendia uma espécie de organização humana baseada na racionalidade, ou seja, os meios devem ser analisados e estabelecidos de maneira totalmente formal e impessoal, a fim de alcançarem os fins pretendidos. Teríamos uma tecnocracia blindada de pressões políticas ou partidárias, tomando decisões com base na razão e mirando naquilo que realmente interessa ao povo governado, dando também certa continuidade ao bom funcionamento do serviço público.

Na teoria, louvável. Na prática, nem tanto. À medida que essa burocracia foi concentrando mais e mais poder, sem a necessidade de prestar contas a eleitores, o arbítrio se tornou irresistível, e aquilo que deveria ser do “interesse nacional” muitas vezes se chocava com os interesses particulares dessa casta privilegiada. Sendo a natureza humana o que é, era evidente que teríamos abusos.

O poder corrompe, e o egoísmo campeia. Há toda uma escola de pensamento, fundada em Virgínia, só para analisar as “falhas de governo”, lembrando que as pessoas por trás do Estado continuam sendo seres humanos, reagindo, portanto, ao mecanismo presente de incentivos.

Normalmente o carreirista de Estado está mais interessado em sobreviver que em prestar um bom serviço público. O onipresente Alcibíades, ateniense do quinto século, foi um imperialista democrático, um simpatizante da oligarquia, um procurado fora da lei do Estado ateniense, um vira-casaca trabalhando para Esparta, um democrata ateniense e um exilado aristocrático sob a proteção da Pérsia. O denominador comum era seu manipulativo e habilidoso dom para a sobrevivência na política grega. Uma espécie de Sarney ou Renan Calheiros dos tempos atuais. Eis a marca do típico representante do “deep State”.

Em exemplo mais recente, temos Talleyrand, que, por mais de 40 anos, foi uma figura permanente da Corte de Paris e, portanto, em sucessão, defensor e traidor do Antigo Regime, da Revolução Francesa, de Napoleão e da monarquia restaurada. Sua lealdade era para com a carreira de Monsieur Talleyrand, e não para com a França, muito menos para a monarquia, a revolução, o governo republicano ou a ditadura.

Agora troque Itamaraty por BNDES, por Ministério da Educação, por Ministério de Minas e Energia e tantas outras pastas, e teremos uma boa ideia do nível de sabotagem que este governo sofreu

Toda essa explanação nos serve para chegar ao cerne da questão. Numa reportagem de Jamil Chade publicada no UOL, vemos como diplomatas tentaram sabotar a política externa de Jair Bolsonaro. O próprio autor usou a palavra sabotagem no título antes, mas depois achou melhor alterar a chamada. O teor, porém, segue o mesmo: um grupo de servidores do Itamaraty agiu para neutralizar ou modificar as políticas bolsonaristas em assuntos globais.

Diz a reportagem: “Temas como mudanças climáticas, direitos humanos, a questão palestina ou mesmo a guerra da Ucrânia foram tratados nesses encontros sigilosos, confirmados pelo UOL com 13 funcionários do Itamaraty, incluindo embaixadores e servidores administrativos, e em um amplo e ainda inédito estudo de pesquisadoras da FGV e de Oxford. A rede não envolveria apenas alguns poucos nomes e, de fato, teria se espalhado por alguns dos principais departamentos da chancelaria”.

Em seguida, vemos a inversão de conceitos: “Para diplomatas, a palavra correta seria resistência, que existiu ‘em nome da democracia e da soberania’, e sempre ocorreu dentro de parâmetros da legalidade. No fundo, tais atos não eram nada mais que uma tentativa de ‘equalizar posições’ diante daqueles que estavam destruindo as estruturas do Estado. A verdadeira sabotagem, neste sentido, era o que estava ocorrendo com o sequestro de décadas da diplomacia brasileira para atender aos objetivos da extrema direita”. 

Ou seja, servidores do Estado agiram para boicotar e sabotar um governo eleito, mas como era contra a “extrema direita”, então era “resistência”. É exatamente a mesma tática usada para atropelar a Constituição, defender o arbítrio supremo, aplaudir prisões arbitrárias, censura e perseguição ideológica. Como os alvos são da “extrema direita”, então vale tudo, pois a verdadeira ameaça, a sabotagem real, vem do governo eleito. E o povo que escolheu esse governo? Isso é um mero detalhe…

Foi exatamente o que fizeram nos Estados Unidos contra Trump. Usar o aparato do FBI para perseguir apoiadores de Trump é um crime evidente, e esgarça o tecido institucional do país, enfraquecendo os pilares republicanos. Mas como o alvo era Trump, o terrível “fascista”, então tudo foi tolerado em nome de uma causa nobre, um bem maior. Os nobres fins justificam quaisquer meios, a máxima leninista que está por trás de toda essa sabotagem.

A premissa que sustenta esse atentado contra as instituições é a de que o povo escolhe errado às vezes, e cabe ao aparato tecnocrata “proteger” os interesses da nação. Não resta dúvida de que o povo escolhe mesmo muita porcaria de tempos em tempos, e basta ver o sucesso da esquerda populista na América Latina para comprovar. Mas a vantagem da democracia é que o escolhido pode ser deposto sem revolução, e há, portanto, o escrutínio constante do público e a responsabilidade imposta ao gestor eleito.

Por outro lado, essa nomenclatura ungida parece intocável, blindada de toda pressão popular. Não tenho dúvidas de que muitos ali são sinceros quanto aos seus intuitos, e juram estar apenas defendendo o país. Mas ninguém os concedeu tal poder. Ninguém pediu aos “barbudinhos do Itamaraty” para impedir os “resultados catastróficos” da política externa de Bolsonaro. Pelo contrário: o povo votou em Bolsonaro para que ele pudesse escolher sua política externa!

Agora troque Itamaraty por BNDES, por Ministério da Educação, por Ministério de Minas e Energia e tantas outras pastas, e teremos uma boa ideia do nível de sabotagem que este governo sofreu desde o começo, pois os “tecnocratas ungidos” estavam certos de que a “extrema direita” representa uma ameaça ao país e ao mundo, e se arrogaram a missão de nos proteger — sem um só voto de confiança da nossa parte para tão nobre missão.

Título e Texto: Rodrigo Constantino, Revista Oeste, nº 142, 9-12-2022

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