segunda-feira, 15 de novembro de 2021

[Observatório de Benfica] Os dois PS e os amanhãs que cantam

Mário Florentino

Cada um dos dois maiores partidos encontra-se, neste momento, dividido em dois. No PSD a história é simples, e está à vista de todos, uma vez que se realizam eleições internas dentro de duas semanas. O caso do PS é mais subtil, mas um artigo publicado ontem no Público chamou a atenção para essa divisão interna, tão ou mais forte que no caso do PSD. É que, caso o PS não vença em janeiro, “o dia seguinte às eleições não vai ser bonito de se ver”, como escreve a jornalista Ana Sá Lopes.

Há, no entanto, uma diferença essencial nas divisões dos dois partidos. Vejamos. No partido fundado por Sá Carneiro, tanto a facção mais esquerdista, protagonizada por Rui Rio, como a facção que apoia o agora candidato Rangel, rejeitam qualquer acordo de governo com o Chega. Rio apenas admite, para não fechar totalmente a porta, algum eventual entendimento no caso desse partido “se moderar”.

Já no caso do PS, as duas facções parecem ter uma divisão mais substancial e insuperável. De um lado temos o PS “moderado” (chamemos-lhe assim para simplificar), ou seja, os que defendem uma separação clara face aos partidos não democráticos de extrema esquerda, seguindo a práxis do seu fundador, Mário Soares. Nesta ala estão aqueles que sempre o defenderam, como Francisco Assis, Álvaro Beleza ou Sérgio Sousa Pinto. Mas está também agora António Costa, que, após o chumbo do orçamento por parte dos seus parceiros BE e PCP, já admite até conversar com o PSD. Tudo em prol de se manter no poder.

No outro lado, temos os chamados “pedronunistas”, seguidores do ministro Pedro Nuno Santos, um grande adepto das empresas nacionais, e até, se necessário, de nacionalizações. Para esta ala, parece ser irrelevante a Geringonça ter falhado – ou nas palavras certeiras de Sérgio Sousa Pinto, ter morrido – porque a única hipótese que admitem para o PS formar governo é voltar a aliar-se ao PCP e ao BE. O que, como qualquer português percebe, é absurdo, uma vez que foram esses mesmos dois partidos que recusaram o orçamento. (Qual a credibilidade que teria um novo acordo passado tão pouco tempo?). Esses senhores, entre os quais o secretário de Estado, Duarte Cordeiro, nem querem ouvir falar em “bloco central”, ou em entendimentos com o PSD, partido que nas suas cabeças apelidam de fascista ou “neoliberal” (em boa verdade não sabem sequer distinguir uma coisa da outra). 

Temos, portanto, um PS moderado e um PS radical que se odeiam, e com visões radicalmente distintas da política e da sociedade. E isso começa a ficar visível nas intervenções públicas de cada um dos lados, e ficará pior durante a campanha. Do lado do ainda primeiro-ministro - que nos últimos seis anos pareceu entender-se mais com a ala radical, e agora, por força das circunstâncias, volta para a ala moderada - o “papão” da extrema-esquerda será usado na campanha, para forçar o voto útil, esperando assim obter maioria absoluta. O que só vem provar que os moderados sempre tiveram razão, e que a Geringonça foi uma asneira que todos os portugueses estão a pagar bem caro, com o empobrecimento geral do país. 

E, por outro lado, vem reforçar a tese de Paulo Rangel de que um voto neste PS é um voto inútil. Só seria útil para a ala pedronunista, que sonha com os “amanhãs que cantam”, finalmente concretizados através de um reforço da aliança com partidos que ainda recentemente celebraram os 104 anos da Revolução Russa: “A mãe de todas as revoluções, um projeto emancipatório construído por operários, camponeses, soldados, homens e mulheres que sonhavam com um mundo melhor”, lia-se num tweet dos jovens do Bloco. Elucidativo.

Fica BEM 👍

Ricardo Araújo Pereira. O programa semanal que mantém todas os domingos na SIC é um programa de excelência. Apesar de ser um programa de humor, consegue ser ao mesmo tempo um excelente programa de comentário e análise política, talvez mesmo o melhor de todos. Porque, como disse Florbela Espanca, a ironia é a expressão mais perfeita do pensamento. Parabéns.

Fica MAL 👎

A CNN Portugal ainda não iniciou as transmissões, mas já é alvo de polémica. A sua publicidade com a imagem dos comentadores contratados está a inundar as redes sociais, sendo alvo de chacota. Está em causa o facto de serem as mesmas caras conhecidas de sempre, e uma grande parte deles serem favoráveis aos interesses instalados no poder. É caso para dizer que não havia necessidade.

Título e Texto: Mário Florentino, Benfica, 15 de novembro de 2021

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2 comentários:

  1. A CNN, seja a americana ou a brasileira, é ridícula. Quem ainda assiste ao redondinho Brian Stelter? Ao irmão do governador do Estado de Nova Iorque, Christopher Cuomo? Ao penteadinho Anderson Cooper? Ao cínico Jake Tapper? Almost nobody
    O mesmo acontece no Brasil, onde é a terceira ou quarta estação assistida.
    A CNN, enfim, é uma albergaria chique para os militantes fantasiados de jornalistas.
    O franchising em Portugal me parece mais ridículo ainda: um canal já estabelecido, transfigura o seu canal de notícias 24h em... CNN Portugal. Com as caras e bocas mais vistas na televisão portuguesa.

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  2. Quanto ao CDS e PSD:
    O CDS é o partido que a extrema-esquerda ama: "tão vendo como a gente é democrata!"
    (Tem uma deputada que, pelo pouco que vi, é um "oásis" naquele deserto: Cecília Meireles.
    Quanto ao PSD tomei aversão pelo comportamento de muitos dos seus integrantes durante o governo de Pedro Passos Coelho: (citando de memória) Rui Rio, a cobra Marcelo quando comentador, um tal de Capucho, o que dizer de Alberto João Jardim?, tem um cara que ia todas as noites, de barba, esqueci o nome, sem falar numa coisa que dá pelo nome de Pacheco Pereira!, lembrei da antiga ministra, Ferreira Leite, cujo veneno transpassava a telinha e fustigava os meus óculos.
    Deus me livre dessa gente!
    E CHEGA de direita consentida!

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