terça-feira, 2 de novembro de 2021

[Estórias da Aviação] Umas férias de sonhos

José Manuel

O ano era 1971, o mês, julho e eu voando para cima e pra baixo os AVROS, com aquele barulho infernal dos dois turboélices, rosnando em minha cabeça como um teste a longo prazo para ver se a minha audição aguentaria, e por quantos anos ainda poderia ouvir sem aparelhos!

Não era só aquele baixinho nervoso e barulhento que incomodava. Havia outro!

O que mais me deixava incomodado eram aquelas madrugadas infindáveis, sete dias por semana mais uma reserva e prontidão no meio.

– Alô, sim é José Manuel. Quem fala?

– Aqui é o Plínio da escala, Zé Manuel, assim, numa intimidade plena sem que eu a houvesse outorgado em nenhum momento da minha curta vida de aeronauta.

O sujeito gostava mesmo de mim, e como ninguém dava o telefone, pois não poderia ser obrigatório ele arrumou um jeito de conseguir o meu.

Daí para a frente foi só bullying comigo o tempo todo, durante os próximos 10 "dez" anos!!!

Acabou em 81. Depois eu conto!

– Amanhã, você tem uma Conexão para São Paulo com decolagem prevista para as 6h e condução na tua casa às 4h30.

Aquilo se repetia dia sim outro também e passei a odiar aquele telefone preto e o cara do outro lado da linha.

Aquele recadinho, significava acordar às 3h30, fazer barba, tomar banho, café e ficar dormindo em pé na portaria do meu prédio, de uniforme até que aquela linda kombi azul e branca freasse aos meus pés, enquanto o planeta inteiro ainda dormia!

Naquela época, era escolher entre vida social ou o emprego. Nada mais do que isso.

Andei tanto de madrugada naquelas kombis, que hoje em dia, 50 anos depois tenho uma na minha garagem, por hobby de colecionador e para não me esquecer do... Plínio!

Verdade... é só perguntar ao Fernando Vieira Dutra, que ele confirma.

Aliás o meu trauma foi tamanho, que tive duas: a primeira, linda, era americana até com ar-condicionado que comprei do Comandante Marcelo Branco, (in memoriam), e marido da Gláucia, lá pelo ano de 85. Depois vendi para o João Nepomuceno que não largava do meu pé querendo aquela kombi a todo o custo.

Em 97, a Volkswagen lançou aqui no Brasil, vinda do México a Carat com a porta de correr igual à primeira 72 amarela e eu morrendo de saudades da kombi que havia vendido, e... do Plínio, comprei a dita cuja, branca. Está aqui na minha garagem.

E foi num dito bullying desses, gentilmente convidado para uma ponte-aérea sub-madrugada, que por incrível que pareça ganhei na loteria, o meu passaporte para umas férias maravilhosas.

O voo, era uma ponte SDU/BHZ/SDU e lá fui eu cumprir a minha sina de mais uma das muitas "Dawn Pool flight".

Voo tranquilo para BHZ, uma hora de aeroporto na Pampulha e novo embarque, quando vejo na fila, uma garota muito bonita acompanhada de uma senhora. Era francesa e estava acompanhada de sua avó brasileira, vindas de Ouro Preto, onde a avó havia residido.

Durante o voo, nossos olhares eram tantos que consegui esquecer tanto o Plínio, como o ódio que tinha dele, foi se transformando em amor fraterno!

Num dado momento vi que ela se levantava em direção à Galley onde eu estava, para ir ao toalete.

Passando por mim deu um "Bonjour" tão “sussurrante e chaud" que quase cai dentro do porão traseiro do Avro!!

Bom, daí para a frente até chegar ao Santos Dumont, aquele AVRO num passe de mágica se mimetizou em suave Concorde que apesar de só voar cinco anos depois, a carteirinha de habilitação técnica dele, apareceu no meu bolso, e o francês passou a ser o meu idioma de nascença.

MARTINE, esse era o nome da francesinha de olhos verdes e olhar 24X48, charmosíssimo. Era como olhar um Croque-monsieur apetitoso, sem saber o que fazer nas alturas e com o barulho exterior, desaparecendo do meu interior. Conversamos muito... por mímica, reconhecimento labial, libras e por aí afora, até que o avião pousou aqui no Rio e a “enfant de la patrie“ desembarcou e... sumiu!!

Quando dei por mim já era tarde e o horizonte perdido, pois esqueci "complètement" de pedir seu telefone, e agora? Bom, só tinha duas chances e acertei na primeira. 

Minha pax-deusa estava na fila do táxi e consegui lhe passar meu telefone e o meu endereço, por via das dúvidas.

Nessa época, morava com os meus pais e minha irmã com 12 anos, que em 85, acabou entrando para o voo, depois comissária Ana Paula.

Morávamos em Botafogo, na rua Marquês de Olinda, e para minha surpresa, dois dias depois Martine apareceu com presentes à minha família num gesto belíssimo de cortesia.

Ficamos juntos os três por quinze dias passeando pelo Rio, eu, e os dois franceses, a Martine e o Renault Gordini azul desbotado que havia comprado do Louback da escala, coleguinha light do Plínio heavy.

Foram quinze dias deliciosos naquela época entre AVROS e amores, com a França toda me envolvendo com aquelas duas máquinas, uma de fazer inveja a outra nem tanto, mas também sem fazer vergonha.

No início de agosto, Martine voltou à França via Caiena, falando Portucês, me deixando aqui largado à própria sorte, tendo o Plínio como algoz e colado na minha cabeceira dentro do meu telefone.  E eu, com a firme intenção de me reencontrar com a francesinha na cidade luz, o que ocorreu onze meses depois de muita correspondência e muito folhear de dicionários.

O mês de julho de 1972 se aproximava, materializando minhas férias, minha primeira viagem internacional, enquanto o Plínio no máximo ia todos os dias para Marechal Hermes.

E então, finalmente chegou aquela data tão esperada do início de julho de 1972, quando parti para a Europa num brilhante B-707 e seu navegador com o sextante do Gago Coutinho, lá de 1922.

Minha viagem dos sonhos começaria com a primeira escala de doze dias em Portugal, de onde tinha saído dezoito anos antes e chegando ao Brasil na minha primeira de muitas travessias futuras por trinta e dois anos, com apenas oito anos de idade.

Depois dessa primeira em 1954 o Atlântico se tornaria para mim uma via de dupla mão, sei lá, por talvez umas presumíveis 1 700 travessias transatlânticas ida e volta tanto no sentido Leste Europa, quanto no do Norte para a América e Sul para a África. Deve ter sido algo assim, mas cálculo que esteja mais ou menos por aí, incluído as 25 mil horas de voo, registro DAC.

O certo é que o meu sonho dourado, estava começando dentro daquele pássaro prateado, logo no início do mês de julho, ainda na primavera europeia, com pouco frio e nada de calor. Uma estação deliciosa na Europa!

Bem longe do Plínio, e cada vez mais perto da Martine, minha nova Joana d'Arc.

A minha chegada a Portugal, ainda se deu no período Salazarista e, portanto, quem controlava a imigração ainda era a temível PIDE, e ao mostrar meu passaporte brasileiro com nascimento na terrinha, senti olhares nada muito primaveris, mas já esperados.

E foi graças a esse "salvo conduto" que talvez eu não esteja hoje embaixo de sete palmos em terras angolanas!

Logo após a liberação na imigração, estava pronto para a minha bela odisseia com a minha família me aguardando, e a Europa sorrindo para mim.

Sou de uma família grande, principalmente da parte do meu pai, e fui reencontrar muitos tios que me viram pequenino embarcar ao Brasil e conhecer muitos primos que não conhecera nestes dezoito anos de ausência. Não há palavras que traduzam meu sentimento naqueles doze dias em Portugal, muitos passeios por lugares que não conhecia, muitos jantares, muitos almoços, muita coisa para contar e ouvir. Como “turista" pude ir quantas vezes quis, aos Cassinos do Estoril ou ao de Espinho, me divertir a valer, coisa que jamais poderia fazer no Brasil.

Rever meus amiguinhos de infância, as casas onde residi e o quartel dos bombeiros na frente de uma delas, onde assisti chegar o primeiro Jeep Land Rover, que disparou minha paixão por esses veículos pelos quais sou apaixonado até hoje.

E como não poderia deixar de o fazer, fui acariciar com um beijo aquele meu sonho de criança matando todas aquelas saudades reprimidas por longos anos.

Foi tudo surreal e muito, muito além do esperado. Rejuvenescido 18 anos estava pronto para a próxima aventura.

A segunda etapa, depois de muitos telegramas a Paris, para confirmar a chegada, seria finalmente a cidade luz, com a minha luz acesa de expectativa ao reencontro da francesinha "merveilleusement belle"

Sim, essa era Martine, filha de um gentleman légitime, ex-prefeito de uma cidade importante, ex-governador de um departamento ultramarino e atual à época Directeur de la Protection Civile Française, um cargo altíssimo na administração governamental.

Eu não sabia disso em nenhum momento e só passei a conhecer esses fatos assim que cheguei a Paris, porque eram pessoas super discretas, super educadas e por uma questão de respeito e segurança, omito aqui seus sobrenomes.

A acolhida familiar foi muito gostosa e mãe, a avó e ela já tinham reservado um pequeno hotel muito charmoso, “à côté" do Bois de Boulogne, no 16ème arrondissement, muito perto de onde residiam, onde me instalei muito confortavelmente. O único problema era o banho, que a "concierge" não conseguia aceitar que um sul-americano pudesse fazer isso todos os dias!

Mas, problema sanado, acabei conseguindo realizar meus instintos sanitários a contento.

O roteiro da minha estadia não podia ser mais perfeito. Na primeira semana, tendo Martine como uma perfeita hostess, fui conhecendo vários museus e monumentos famosos em Paris.

Um deles, Les invalides onde fica o túmulo de Napoleão, talvez tenha sido o que mais me impressionou, pois é de arrepiar a suntuosidade daquela cripta onde repousa o Imperador herói francês.

Saindo da cidade luz, andamos por Versalhes, Deauvilhe, Trouvilhe, na Normandia, e fui levado a conhecer a famosa catedral na cidade de Rouen, uma das mais lindas da Europa. O mais interessante é que praticamente convidado por um alto funcionário do governo, fiz todos esses passeios a bordo de uma viatura com chofer e bandeira francesa no paralama. Nunca me senti tão importante na vida.

Sua avó gentilíssima, nos emprestou seu Renault, e com ele fizemos vários roteiros gastronômicos pela cité como Quartier Latin, Montmartre e muitos outros. Era como um sonho o que estava vivenciando.

A terceira etapa, uma viagem rápida de dois dias a Londres para compras de presentes para meus pais, irmã e claro meus anfitriões. De volta a Paris, fui levado a conhecer os lindos castelos do vale de Loire, principalmente Chambord que fiquei maravilhado. 

Conheci catedrais como Chartres com os seus vitrais maravilhosos, a de Orleães, belíssima e o santuário de Lisieux, também na Normandia, onde na Basílica se encontra o corpo de Santa Terezinha.

Um fato interessante para não esquecer, é que na Basílica de Santa Terezinha do menino Jesus de Lisieux, nas laterais da nave estão as capelas dos países onde Santa Terezinha é venerada.

E lá, pude ver a pequena capela do Brasil, algo que me deixou emocionado, pois não esperava.

Martine e sua família foram tremendamente simpáticos comigo, me proporcionando dias magníficos e uma bagagem cultural ímpar, além do idioma que por obrigação passei a usar com certa fluência.  Tenho uma dívida eterna com essa família fabulosa e até hoje eu e Martine somos muito amigos e nos comunicamos frequentemente pelo WhatsApp.

Como tudo o que é bom acaba rápido nos despedimos afetuosamente em Orly, pois meus amigos, o 707, o navegador, o sextante me aguardavam na pista para me transportar de volta ao Brasil, ao Rio, e ao... Plínio.

Título e Texto: José Manuel - Allons enfants de la Varig,  le jour de glorie est arrivé! Outubro de 2021

Anteriores: 
Open skies, ônibus alados e a presidência 
Voo Vasp 375 
Um Miami para não esquecer 
12 de abril de 2006 – o dia em que meu mundo desabou 
Um passeio pela Varig nos anos 70 
A Varig... Luanda & Cabul 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não aceitamos/não publicamos comentários anônimos.

Se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-